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ENERO 2018 N° 1 Volumen 8

Cooperação Internacional para o avanço da investigação em Enfermagem

Sección: Editorial

Autores

Silvana Martins Mishima

Cargos

Doutora em Enfermagem. Professor Titular junto a Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Brasil
Diretora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Centro Colaborador da OPAS/OMS para o desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem

Contacte con los autores para realizar consultas sobre este artículo. Email de contacto: smishima@eerp.usp.br

Ao se pensar e se falar sobre o tema da cooperação internacional, distintos enfoques e possibilidades se fazem presentes, entretanto, o ponto em comum a qualquer abordagem diz respeito ao processo da globalização como um processo multidimensional incluindo distintos aspectos: econômicos, políticos, culturais, sociais, populacionais, migratórios e científico-tecnológicos (1). Nesta perspectiva, verifica-se que no mundo contemporâneo, conhecimentos e tecnologias são permeáveis para além das fronteiras que demarcam territórios geográficos específicos, difundindo-se facilmente e criando novas possibilidades de produção de novos conhecimentos.

Considerando este contexto de possibilidades de trocas e parcerias, a cooperação internacional pode ser considerada como um mecanismo de desenvolvimento conjunto entre países em resposta a desafios comuns (2), sendo que "a associação entre dificuldades comuns e interesses compartilhados para enfrentamento das mesmas caracteriza oportunidades de cooperação entre países" (3). Este processo considera sem dúvida que a “Pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação em saúde (PD&IS) se incluem nesse movimento de interação global, embora sua gestão e seu acesso se insiram em uma estrutura assimétrica de poder no âmbito das relações internacionais” (1).

De outra forma, é possível afirmar que dentre as distintas abordagens de cooperação internacional, há aquelas que se voltam para uma relação de troca baseada na compreensão dos processos sociais, políticos, econômicos, ideológicos de cada país; e por outro lado há enfoques em que existem interesses e relações de poder de um país sobre o outro, em que os interesses assumem um sentido de dominação unilateral, impondo, portanto, uma relação desigual entre os países (4). Em qualquer uma destas formas de cooperação “ocorre em maior ou menor grau o intercâmbio cultural e técnico” e “o desejável seria que este mecanismo assegurasse o desenvolvimento do conhecimento na busca de autodeterminação”(4).

Documento do Ministério da Saúde do Brasil (5) aponta que a cooperação internacional em seu componente técnico constitui-se em um importante instrumento de promoção do desenvolvimento nacional, propiciando a transferência de conhecimentos e técnicas de outros países e de organismos internacionais, promovendo adicionalmente o adensamento das relações políticas, econômicas e comerciais entre os parceiros.

Tomando este quadro conceitual e as premissas apontadas pode-se dizer que a perspectiva da cooperação internacional pode promover o desenvolvimento e qualificação da investigação em enfermagem, permitindo seu avanço e a possibilidade de atingir níveis de excelência que contribuam para a prática, o ensino e a própria produção de novos conhecimentos.

Já em 1988, na descrição de uma experiência de intercâmbio e colaboração entre instituições de ensino em enfermagem da América Latina e Estados Unidos da América (4) que contou com financiamento da Fundação W. K. Kellogg, foi reconhecida a importância do trabalho cooperativo internacional como uma potente ferramenta de intercâmbio de conhecimentos e apoio mútuo entre as instituições envolvidas apresentando a potencialidade de contribuir para o desenvolvimento da enfermagem latino americana.

Outro estudo sobre a experiência da cooperação técnica para formação de pessoal de enfermagem para redução de álcool e drogas (6) apontou que organizações internacionais, universidades e instituições não governamentais tem a potencialidade de
desempenhar um papel fundamental no processo de cooperação internacional, sendo um fator chave para o sucesso desta é o “conhecimento sobre o poder de parcerias. O sucesso de uma parceria depende da capacidade destas instituições de saber como trabalhar em conjunto. A construção de parcerias requer a colaboração entre todas as partes envolvidas no processo”, requer a divisão de poder, interesses, conhecimentos e lideranças, e união deve ser baseada em benefícios e respeito mútuos entre todas as partes envolvidas (6).

Ainda, é apontado que o desenvolvimento de uma colaboração técnica de caráter internacional envolve “autonomia, auto-responsabilidade, tempo, esforço e recursos de todos os participantes” (6).

Os autores (6) indicam que uma meta da cooperação técnica internacional é o desenvolvimento de recursos humanos e, pode-se adicionar, que é ainda a ampliação das capacidades institucionais para uma abordagem mais ampla da construção de conhecimentos que qualifiquem de forma mediata e imediata o ensino e a prática profissional.

O projeto financiado pela Fundação W. K. Kellogg (4) citado acima, apresentou como foco três temas básicos: educação, prática e pesquisa internacional de enfermagem, tendo como resultado a necessidade da conformação de uma rede de colaboração e intercâmbio regional nestas três áreas, tendo-se como premissa “a necessidade de considerar colaboração internacional nas Américas como um processo aberto, solidário e democrático, respeitando as diferenças e soberanias dos países participantes” (4).

Um dos aspectos derivados da discussão deste projeto (4) e que apresenta importância fundamental mais contemporaneamente refere-se ao ensino na Pós-Graduação stricto senso que representa um espaço fundamental de intercâmbio na produção de conhecimento e na mobilidade de pesquisadores e alunos de pós-graduação em enfermagem.

Intercâmbio este tanto na utilização, produção e difusão do conhecimento, considerando neste último aspecto suas distintas formas de divulgação científica, processo este que tem sido amplificado pelas tecnologias de informação e comunicação.

Considerando este aspecto pode-se afirmar o papel fundamental da pós-graduação, enquanto uma instância aglutinadora do pensamento da enfermagem aonde se faz possível a capilarização do conhecimento produzido. Cabe destacar que, os Programas de Pós-Graduação em Enfermagem, em especial os programas de doutoramento têm em sua missão a proposta de formação de quadros de excelência de pesquisadores.

Neste processo, a mobilidade internacional de pesquisadores e de estudantes em cenários distintos, permite enriquecer o conhecimento acerca de outras realidades do ponto de vista profissional, social, cultural, sanitário, das práticas profissionais específicas e com isto favorecer análises mais amplas sobre as potencialidades da prática de enfermagem em contextos diversos. Consequentemente, há a possibilidade do adensamento das análises dos temas pesquisados, bem como de aproximações e avanços na utilização de metodologias empregadas nas investigações no campo da enfermagem em centros de pesquisa qualificados.
Assim, os processos de cooperação internacional podem ampliar o escopo da formação de pesquisadores e ao mesmo tempo ampliar as possibilidades da constituição de redes colaborativas para o desenvolvimento de investigações que respondam a questões prioritárias dos serviços de saúde nos níveis local, regional, nacional, inter-regional (no caso da pesquisa entre conjunto de países), do trabalho de enfermagem em diferentes contextos da prática profissional e da construção do conhecimento de um modelo de assistência de enfermagem "adequado" às diferentes realidades.

Tendo em vista este quadro é importante considerar que os processos quer sejam eles da cooperação técnica, dos processos de colaboração entre grupos de pesquisa, dos processos de formação conjunta de instituições envolvendo dois ou mais países, assim como da mobilidade de pesquisadores e de estudantes na pós-graduação em enfermagem, estes se constituam espaços privilegiados de colaboração e cooperação, desde que haja um entendimento preliminar de que o 'cuidar' é socialmente determinado e que a instrumentalização através destes processos possa permitir a construção de modelos que respondam às necessidades de cada sociedade (4).