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ABRIL 2015 N° 2 Volumen 5

Processo de formação crítico-criativo: percepção dos formandos de enfermagem

Sección: Originales

Autores

1 Joanara Rozane Da Fontoura Winters, 2 Marta Lenise Do Prado

1 Enfermeira, Mestre em enfermagem. Professora, Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Membro do Grupo de Pesquisa Educação, Saúde e Eenfermagem (EDEN) Universidade Federal de Santa Catarina.
2 Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da Universidade Federal de Santa Catarina. Membro EDEN, Universidade Federal de Santa Catarina.

Resumen

Introduçao/Objetivo: trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo, descritivo exploratório, ancorado pelo referencial de Paulo Freire, cujo objetivo foi compreender como os formandos de graduação em Enfermagem de uma Universidade Pública da Região Sul do Brasil percebem o seu processo de formação para a construção do profissional critico criativo.
Método: participaram deste estudo 11 estudantes de Enfermagem, do sexo feminino, com idade entre 21 e 30 anos, regularmente matriculadas no último ano do curso. Os dados foram coletados no primeiro semestre de 2012 por meio de entrevistas individuais com roteiro semiestruturado. O tempo médio das entrevistas foi de 30 minutos e foram analisadas de acordo com análise de conteúdo.
Resultados: após analisadas, resultou na categoria A formação do profissional critico criativo e as subcategorias: Construindo um agente transformador e Buscando conhecimento.
Discussão: os resultados apontam que a formação do enfermeiro é crítica e criativa e que a busca do conhecimento é importante para a transformação da realidade e essencial para mudança no ambiente de trabalho. Essa busca pelo conhecimento leva à autonomia e isso faz com que os alunos sejam sujeitos do seu processo ensino aprendizagem. Eles destacam ainda a importância da pesquisa na sua formação.

Palabras clave:

educação em enfermagem ; criatividade ; estudantes de enfermagem

Title:

Critical process in creative education: nursing graduates perceptions

Abstract:

Introduction/purpose: this is a qualitative, descriptive, and exploratory investigation, based on the Paulo Freire theoretical referral. It is aimed at understanding the perceptions of undergraduate nursing students in a public university in Southern Brazil on their training process to build a critical and creative professional.
Methods: eleven last year undergraduate nursing students were enrolled. Dada collection was carried out during the first six-month term in 2012, by means of semi-structured individual interviews that were analyzed through contents analysis.
Results: the analysis resulted in the development of a category A training of a critical and creative professional, with the following subcategories: building of a transformation agent and search for knowledge.
Discussion: results suggest that nurse education is critical and creative, and that search for knowledge is important to transform the reality and critical for promoting the change in workplace. Such a search for knowledge leads to autonomy and makes the students the subject of their learning process; it also highlights the importance of research in their education.

Keywords:

Nursing education; creativity; nursing students

Portugues

Título:

Proceso-crítico educación creativa: percepción de graduados de enfermería

Resumo:

Objetivo: este estudio es una investigación cualitativa, descriptiva y exploratoria, basado en el referencial teórico de Paulo Freire. El objetivo es comprender cómo los estudiantes de enfermería de pregrado en una universidad pública del sur de Brasil perciben su proceso de formación para el desarrollo profesional crítico y creativo.
Métodología: en el estudio participaron 11 estudiantes de enfermería matriculados en el último año. Los datos fueron recogidos en el primer semestre de 2012 a través de entrevistas semiestructuradas individuales y se analizaron mediante análisis de contenido.
Resultados: después de analizado, resultó en la formación de la categoría A formación del profesional crítico creativo y las subcategorías: construcción de un agente de transformación y búsqueda de conocimiento.
Discusión: los resultados indican que la formación del enfermero es crítica y creativa, y que la búsqueda del conocimiento es importante para la transformación de la realidad, y es esencial para el cambio en el lugar de trabajo. Esta búsqueda de conocimiento conduce a la autonomía y esto hace que los estudiantes sean sujetos de su proceso de aprendizaje, también enfatizan la importancia de la investigación en su formación.

Palavras-chave:

educación en enfermería; creatividad; estudiantes de enfermería

Introdução 

O raciocínio e a crítica, quando inseridos no pensar, são ferramentas mentais especiais na compreensão da realidade e do conhecimento. O pensamento crítico não seria um método a ser aprendido, mas um processo, é ainda um conceito em desenvolvimento na área de Enfermagem, e não existe um modelo suficientemente claro sobre o pensamento crítico (1).
A maioria dos currículos de graduação em Enfermagem tem como objetivo formar o profissional competente, que desenvolva a habilidades de pensamento crítico para enfrentar os problemas complexos da prática profissional e que seja participativo na sociedade. Essas habilidades podem ser aprendidas e desenvolvidas no transcurso da formação através de experiências que lhe permitam exercitá-las. Sendo assim, inserir-se de forma crítica no mundo é um ato complexo e por isso não se desenvolve de forma automática, traduz-se em ação. O fator principal que permite ao educando esta criticidade é a sua conscientização (2).
Esse processo de formação voltado à consciência crítica e à busca do conhecimento faz com que o educando reflita sobre o mundo e consiga transformá-lo, e para que essa transformação ocorra, o educando precisa se apropriar de saberes para desenvolver o pensamento critico, o que leva a um processo de mudança social, política e pessoal.
Para que esse educando desenvolva o pensar critico e consiga transformar a realidade e o contexto social em que está inserido,, ele deve ser curioso, inovador, empreendedor, buscar novos caminhos. Mas para que isso ocorra, é necessário uma proposta de ensino amparada na pedagogia freireana. Esta é uma proposta de ensino que busca ajudar os educandos a questionar e desafiar a dominação, as crenças e as práticas que a geram. É uma teoria e prática que tem como finalidade o desenvolvimento da consciência crítica dos alunos. (2).
O educando crítico e criativo percebe que mudar é preciso, está aberto a isso e busca alternativas que possibilitem a mudança. Ao estar em um ensino libertador, ele a vê como uma possibilidade e a deseja. O espaço de educação, seu mundo, no qual o educando é estimulado a ser esse agente do aprender, cria possibilidades para que ele, enquanto homem, desenvolva sua capacidade de ser sujeito e ser capaz de transformar sua realidade (2).
Desta forma, as abordagens pedagógicas inovadoras na formação do enfermeiro estão apontadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais em Enfermagem que, no seu art.14,nos incisos V e VI falam sobre a implementação de metodologia no processo ensinar-aprender que estimulem o educando a refletir sobre a realidade social e aprenda a aprender, estratégias pedagógicas que articulem o saber; o saber fazer e o saber conviver, visando desenvolver o aprender a aprender, o aprender a ser, o aprender a fazer, o aprender a viver juntos e o aprender a conhecer que constituem atributos indispensáveis à formação do enfermeiro.(3).
Essa formação do enfermeiro voltada aos quatro pilares da educação é a base para sustentar essa busca do conhecimento e a transformação da realidade, enfim um profissional que consiga agir com criatividade, com autonomia e com criticidade. Diante disso, observa-se que o processo ensino aprendizagem requer práticas pedagógicas voltadas à aprendizagem significativa, ás metodologias problematizadoras que estimulem esse educando a buscar sua autonomia e transformar a sociedade.
Para que isso ocorra, Freire entende que um processo de ensino-aprendizagem com clima pedagógico/libertador acontece quando o educando aprende à custa de sua prática e entende que a sua curiosidade é um ato de liberdade (sujeita a limites) e em contínuo exercício. É a curiosidade que impulsiona a vontade de querer ser, saber e fazer, comparar e perguntar. Em uma educação problematizadora, quanto mais os sujeitos problematizarem-se, como seres no mundo e com o mundo, mais desafiados sentir-se-ão (4).
Sendo assim, as abordagens pedagógicas de ensino-aprendizagem resultam numa formação de profissionais críticos e comprometidos com o seu próprio processo de construção do conhecimento. Profissionais tecnicamente competentes, mas acima de tudo protagonistas de uma nova história, pelo exercício da cidadania e o compromisso com a transformação social (5). Diante desse panorama de transformações no cenário da educação em Enfermagem, o presente estudo teve como objetivo compreender como os formandos de Enfermagem percebem o seu processo de formação para a construção do profissional crítico criativo.

Metodologia 

É um estudo de caráter qualitativo, descritivo e exploratório. O cenário do estudo foi um Curso de Graduação em Enfermagem de uma Universidade Pública da Região Sul do Brasil. Os participantes foram 11 estudantes de Enfermagem, todas do sexo feminino, com idades entre 21 e 30 anos, regularmente matriculadas no último ano do curso. O número total de estudantes foi definido pelo critério de saturação dos dados.
A coleta de dados foi realizada após aprovação no comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos/UFSC através do parecer n. 1942/2011, atendendo às exigências da Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa.
Os dados foram coletados por meio de entrevistas individuais com roteiro semiestruturado. O convite foi realizado, de forma verbal, no primeiro dia letivo do semestre de 2012-1 e, posteriormente, reiterado por correio eletrônico. Mediante estes contatos, as entrevistas foram agendadas previamente de acordo com a disponibilidade das participantes e realizadas individualmente pela pesquisadora, no local onde o curso é desenvolvido, e nos locais de estágio das alunas. O tempo médio de duração das entrevistas foi de 30 minutos. Após explicar para os participantes o objetivo da pesquisa, os mesmos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O anonimato foi garantido mediante o uso de codificação de códigos alfanuméricos, a saber: A1 (educando seguido de número de ordem).
A entrevista é uma conversa com propósitos bem definidos, quando o pesquisador obtém informações contidas nas falas dos atores sociais. Essa técnica se caracteriza por comunicação verbal que reforça a importância da linguagem e o significado da fala e serve como fonte de coleta de informações sobre o tema pesquisado (6).
As entrevistas foram gravadas em mídia digital, transcritas na íntegra logo após a coleta, e posteriormente lidas e analisadas. A transcrição apresentou-se como um momento muito importante porque, conforme foram sendo analisadas, foi-se refletindo a respeito de como os estudantes percebiam a formação profissional que atende aos princípios do SUS e que o transforme em um profissional critico criativo. O procedimento analítico adotado foi a análise de conteúdo (7), a qual se organiza em três grandes polos cronológicos: a pré-análise; a exploração do material; o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação,a saber:

  • A pré-análise consiste na organização propriamente dita. Nesta fase, a pesquisadora entrou em contato direto com o material, realizando leituras e fazendo indagações, foi realizado um recorte textual em unidades de registros, retirando das falas dos alunos os pontos principais das entrevistas. Nesta fase,os recortes textuais da entrevistas foram agrupados em uma tabela no Microsoft Word
  • A segunda etapa é da exploração do material. É uma fase longa e fastidiosa, que consiste, essencialmente, de operações de codificações e administração de técnicas sobre o corpus. Nesta fase a pesquisadora explorou minuciosamente cada fala para encontrar as ideias centrais contidas no discurso dos alunos.
  • A terceira etapa consiste no tratamento dos dados obtidos, a qual corresponde a uma transformação dos dados brutos do texto, permite atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão. Ainda nesta fase foi realizada nova leitura do material e agrupados em subcategorias.
  • Nesta fase, foi realizado o tratamento dos resultados inter-relacionando-os com o referencial teórico e com a literatura. Após a releitura do referencial teórico, emergiu a seguinte categoria: O Processo de Formação na Percepção dos Alunos e a subcategoria Construindo um Agente Transformador e Buscando conhecimento.

Resultado 

Os resultados foram agrupados a partir das categorias Construindo um agente transformador e buscando conhecimento. Desta forma, observa-se que, durante a formação, existe a preocupação com a formação do profissional crítico criativo e isso se expressa na fala dos alunos participantes deste estudo.

Construindo um agente transformador

As acadêmicas consideram que o curso de enfermagem é voltado para o profissional crítico e criativo conforme as declarações dos participantes da pesquisa:
 [...] Eu acredito que a universidade estimula a pensar, a realizar mudanças, no teu ambiente de trabalho, quando você tem essa capacidade de reflexão eu acredito que você consegue observar e buscar estratégias para mudar essa realidade (A2).
As declarações mostram ou sugerem uma formação voltada à transformação da realidade e reflexões sobre as ações do enfermeiro e as mudanças no mercado de trabalho. Sabemos que, para que ocorra essa transformação da realidade, o educando tem que construir o seu conhecimento juntamente com o professor, promovendo uma parceria numa relação de respeito.
Essa transformação da realidade e esse comprometimento com o cuidado estão presentes na formação, como fica evidenciado nas falas a seguir:
 [...] Eu me sinto diferente eu tenho comprometimento com a saúde esse comprometimento você pode observar dentro da sala de aula aquele aluno que cumpre prazos, e responsável ele vai ser um profissional diferenciado, a universidade faz com que os alunos aprendam, horário para estágio, prazo, então isso vai fazer a diferença no mercado de trabalho (A3).
As educandas destacam também que o curso de enfermagem está preocupado nessa transformação da realidade como é relatado pelas falas a seguir:
[...] acredito que dá para aplicar o que aprendemos na universidade, percebo isso porque estamos fazendo estágio em um local bem complicado do hospital, que é a emergência, e dá pra fazer educação em saúde dá para organizar e colocar em prática os nossos conhecimentos e fazer a diferença, acredito que dá para a adaptar em cada realidade (A6).
As participantes do estudo percebem que a formação é voltada para a transformação da realidade e à construção do pensamento crítico, contribuindo para um profissional crítico criativo.

Buscando conhecimento

Nesta subcategoria, as entrevistadas evidenciam que a busca do conhecimento é importante durante a formação; que através dessa busca é que conseguem estar preparados para o mercado de trabalho e conseguirem realizar mudanças significativas na realidade como é retratado nas falas a seguir:
 [...] É difícil você se adaptar no começo, mas mesmo assim eu acho válido porque você constrói o teu conhecimento e a faculdade prepara você para o mercado (A5).
Essa busca do conhecimento leva a autonomia e está presente na formação conforme os relatos abaixo:
[...] Nestas duas fases, você fica sozinha e então você tem que criar autonomia e ter conhecimento, acho que é por isso que a gente se sente mais enfermeiro (A1).
 Essas afirmações mostram o amadurecimento dos educandos que leva à autonomia e, com isso, a à construção do seu conhecimento., o que também pode ser observado nos relatos abaixo:
 [...] A universidade é um diferencial tanto pelas oportunidades, os contatos, o estímulo para você continuar a estudar, o incentivo a busca do conhecimento (A6).
Os depoimentos das educandas a respeito da autonomia também é fortalecido, conforme evidenciado abaixo:
 [...] Eu me sinto muito preparada pela universidade, para enfrentar o mercado de trabalho acho que universidade me preparou para ir a busca do conhecimento, de saber lidar com situações do dia a dia sem estar na proteção dos pais, não ficar parada (A10).
Os educandos cada vez mais vão em busca desse conhecimento, para que possam sentir-se mais seguros e preparados para o mercado de trabalho. Os educandos percebem que sua formação mobiliza sua capacidade de aprender a desenvolver e construir o seu próprio conhecimento.
[...] O processo de ensino aprendizagem é gradativo e isso possibilita um melhor entendimento, desta forma você constrói o teu conhecimento (A12) .
Contrapondo-se a esses depoimentos, observamos também nos discursos das educandas certa insegurança com relação ao processo de construção de conhecimento. Alguns depoimentos relatam que sentiram falta de o professor ensinar, explicar o conteúdo, como evidenciado abaixo:
[...] Eu acho que quando a gente é novo, como nós na faculdade, precisamos de um professor que nos dê o conteúdo, a gente precisa de alguém que dê uma aula, que explicasse melhor, depois sim com leituras complementares e artigos e discussões, precisamos discutir as dúvidas (A1).
Acredito que essa insegurança do aluno vem devido à sua formação durante toda a sua vida escolar, pois normalmente o aluno vem de escolas tradicionais onde o professor é transmissor do saber; ele deposita conhecimento para o educando e, portanto, inseguranças são esperadas no processo de aprendizado. Essa afirmação fica evidenciado nos depoimentos das educandas:
[...] Na fase dos procedimentos faltou isso, alguém explicando a matéria o conteúdo e depois sim você vai procurar mais, o meu desespero foi esse nesta fase, porque eu achei que eu não estava aprendendo (A8).
As educandas demonstram que durante a formação, o incentivo à pesquisa é evidenciado, o que contribui com o estímulo à construção do conhecimento e à educação permanente do profissional conforme relatos abaixo:
[...] O grupo de pesquisa é fundamental, pois instiga a investigação, acho falho que a gente só pode participar a partir da 3ª. fase acho que já nas primeiras fases poderíamos entrar como observador (A5).
Portanto, podemos entender que a pesquisa é um elemento fundamental para a construção do conhecimento e a formação do enfermeiro crítico criativo. Como é relatado a seguir nas falas das educandas:
 [...] Eu participo há dois anos do grupo de pesquisa ,e acho importante, no começo você fica fora da discussão porque você não entende praticamente nada do que as professoras estão falando, mas isso te instiga a querer participar e se envolver com aquilo em alguma pesquisa (A10).
A partir dos resultados investigados, observa-se que o processo de formação é voltado para a busca do conhecimento, para um profissional crítico e criativo e que transforme a realidade.
O educando crítico e criativo em Enfermagem é aquele que é capaz de inovar, ir além dos limites da imaginação, é capaz de observar um cuidado ou uma ação do cuidado e intervir de forma adequada com embasamento científico, não apenas ficar olhando, sem resposta. Ele é capaz de discutir a ação, refletir sobre esse cuidado e ter uma reação, ele procura transformar e mudar a sua realidade.

Discussão

A criatividade e a criticidade dentro da formação do educando é uma preocupação constante dos docentes de Enfermagem. Formar um profissional crítico, criativo, transformador da realidade parece um desafio instransponível. Mas o que se observa hoje é que cada vez mais os educando já têm esta postura dentro da sala de aula, eles não são mais simplesmente espectadores do seu aprendizado, são curiosos e participam da construção do seu próprio conhecimento. O educando crítico e criativo em Enfermagem é aquele que é capaz de inovar, ir além dos limites da imaginação, é capaz de observar um cuidado ou uma ação do cuidado e intervir de forma adequada com embasamento científico, não apenas ficar olhando, sem resposta. Ele é capaz de discutir a ação, refletir sobre esse cuidado e ter uma reação, ele procura transformar e mudar a sua realidade.
 A crítica é a curiosidade epistemológica, resultante da transformação da curiosidade ingênua, para criticizar-se (8). Reafirmando essa ideia, Freire menciona:
A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fizemos (8).
De acordo com Freire, a formação deve estar embasada nesta perspectiva de que o aluno deve ser crítico, para que mude e transforme sua realidade. O pensar crítico (9), é uma expressão que apresenta diferentes perspectivas e definições. Significa a capacidade de o educando e de o professor refletirem acerca da realidade na qual estão inseridos, possibilitando a constatação, o conhecimento e a intervenção para transformá-la.
Neste contexto, a educação deve ser um ato coletivo, solidário, um ato de amor, não pode ser imposta. Porque educar é uma tarefa de trocas entre pessoas e não pode ser feita por um sujeito isolado (até a autoeducação é um diálogo a distância), não pode ser também o resultado do despejo de quem supõe que possuí todo o saber, sobre aquele que, do outro lado, foi obrigado a pensar que não possui nenhum (10).
Concordando com Brandão (10), Freire nos mostra que ensinar requer a plena convicção de que a transformação é possível, porque a história deve ser encarada como uma possibilidade e não como um determinismo moldado, pronto e inalterável. O educador não pode ver a prática educativa como algo sem importância, sendo preciso lutar e insistir em revoluções e mudanças (8).
Desta forma, o educador não deve barrar a curiosidade do educando, pois é de fundamental relevância o incentivo à sua imaginação, intuição, senso investigativo, enfim, sua capacidade de ir além.
Parafraseando Freire, a construção do conhecimento deve se basear no diálogo entre todos os envolvidos no processo ensino-aprendizagem, envolve variáveis que vão além do nível cognitivo, como o sensitivo, o motor, o estético, o intuitivo e o emocional, etc. O sujeito, a comunidade e o "mundo" têm um papel fundamental na construção do conhecimento individual e coletivo (8).
Ensinar exige respeito à autonomia do educando (8). Ensinar é preparar o caminho para a total autonomia de quem aprende, fazendo um cidadão consciente de seus deveres e direitos. Para que o educando de Enfermagem desenvolva a autonomia, é necessário que ele se dê conta do seu inacabamento (12).
Paulo Freire nos ensina essa emancipação do educando, onde ele vai à busca do conhecimento, ele é que constrói o conhecimento e devido a isso sente maior autonomia e segurança.
Ser autônomo exige capacidade de tomada de decisão. É na tomada de decisão ao longo da vida que o aluno constrói sua autonomia. O exercício da autonomia pode ser desenvolvido desafiando o educando a decidir acerca de sua trajetória metodológica, sendo capaz de identificar suas necessidades de aprendizagem a partir do seu processo histórico de construção como cidadão (2). Os educandos cada vez mais vão em busca desse conhecimento, para que possam sentir-se mais seguros e preparados para o mercado de trabalho.
Na formação dos futuros profissionais, conforme proposto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais de Enfermagem Resolução CNE/CES nº 3, de 7 de novembro de 2001, existem ainda desafios, entre eles: o educando como sujeito do seu processo de formação direcionado para o desenvolvimento da capacidade de aprender a aprender, de articular conhecimentos, de desenvolver habilidades e atitudes; de saber buscar informações para resolução de problemas e de enfrentamento a situações de imprevisibilidade, da capacidade de agir com eficácia frente às mais diversas situações, apoiando-se em conhecimentos anteriormente adquiridos, mas sem limitar-se a eles (9).
Assim sendo, Demo (13) afirma que aprender a aprender e saber pensar são habilidades que o professor e o educando devem procurar desenvolver, se o que se quer é educar para um mundo de oportunidades mais equalizador. Estimular o educando a reaprender a aprender é o principal desafio do educador (2).
A atividade de ensinar é vista, comumente, como transmissão de conteúdos aos alunos, realização de exercícios repetitivos, memorização de definições e fórmulas (14).
Desta forma, os alunos percebem que os conteúdos precisam ser aprofundados e revisados por eles próprios, mas esperam que o conhecimento seja transmitido pelo professor ou pela prática profissional. Essa percepção denota que os estudantes têm alguma consciência de seu inacabamento, mas se encontram acomodados em relação à construção de seu conhecimento (12).
Pela pesquisa, podemos encontrar conhecimento, ao entender a pesquisa como princípio científico e encontrar aprendizagem, quando a pesquisa é um princípio educativo (13).

Considerações finais

Neste estudo, observou-se, através das falas das estudantes de Enfermagem, a importância da busca do conhecimento e a transformação da realidade, que a formação crítica criativa é essencial para assumir uma postura de mudança no futuro ambiente de trabalho.
A criatividade é um processo de mudança e desenvolvimento pessoal e social, e deve estar presente em todos os momentos da vida de cada um, como no trabalho, na casa e nas instituições de ensino superior, nas quais a formação está voltada para a mudança e transformações. Nos discursos das alunas, pode-se perceber essa proposta pedagógica voltada ao aprender e a busca do conhecimento com ênfase no saber, com isso o aluno se tornará mais critico e criativo diante das situações do mundo e da sociedade.
Mas ainda precisamos que esta caminhada para transformações e mudanças nos espaços escolares seja efetiva, pois precisamos de estratégias pedagógicas e metodológicas inovadoras, pautadas na construção e reflexão do conhecimento compartilhado, que possibilite agir, transformar e que consigam formar alunos com atitudes criticas. Precisamos que os professores e alunos mobilizem saberes e tragam esse desafio para dentro e para fora das instituições de ensino.
Essa transformação do aluno perpassa os muros das escolas e acaba transformando e criando melhores condições no mundo do trabalho. Faz-se necessário, ao longo da trajetória formativa, refletir sobre o quanto os professores são capazes de permitir ao aluno a liberdade de expressar-se e de construir o conhecimento, pois somente assim ele estará livre para exercitar sua curiosidade, diante de situações, dos temas que o desafiaram a tomar decisões por sua consciência diante do mundo.

Bibliografía

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