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ABRIL 2019 N° 2 Volumen 9

Fatores que interferem na prática da amamentação em estudantes: revisão integrativa

Sección: Revisiones

Cómo citar este artículo

De Melo Bezerra MV, Brandão Monte GCS, Moreira Nicolau ACC, de Melo Bezerra M, Araujo Oliveira W. Fatores que interferem na prática da amamentação em estudantes: revisão integrativa. Rev. iberoam. Educ. investi. Enferm. 2019; 9(2):50-8.

Autores

1 Morgana Valesca de Melo Bezerra, 2 Giselle Carlos Santos Brandão Monte, 3 Ana Carolina Costa Moreira Nicolau, 4 Mayara de Melo Bezerra, 5 Whatson Araujo Oliveira

1 Enfermeira. Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Maceió, AL, Brasil. Pós-graduada pela Universidade Federal Fluminense em Micropolítica da Gestão para o Trabalho em Saúde.
2 Enfermeira Obstetra pelo Programa de Residência em Enfermagem do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mestre em Enfermagem. Docente da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Maceió, AL, Brasil.
3 Odontóloga pelo Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL, Brasil.
4 Biomédica pelo Centro Universitário Cesmac. Maceió, AL, Brasil.
5 Médico pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL). Maceió, AL, Brasil.

Contacto:

Email: morgana.valesca@hotmail.com

Resumen

Objetivo: analizar los factores que afectan a la práctica de la lactancia materna en los estudiantes mujeres.
Metodología: se trata de una revisión integradora de la literatura cuya encuesta se llevó a cabo en las bases de datos Lilacs, Ibecs y Medline en el periodo de enero a febrero de 2015. Los criterios de inclusión fueron: periodo de indexación de 2004 a 2014, que trabajasen la relación de la lactancia materna y los estudiantes y estuvieran disponibles en inglés, español y portugués.
Resultados: la muestra estuvo constituida por 11 artículos que cumplieron los criterios de inclusión. Hubo un predominio de estudios con enfoque descriptivo (97%); en relación con el plan de muestreo estaban todos por conveniencia (100%). La base científica con mayores artículos que sirven fue Medline (100%). Los principales factores que interfieren con la lactancia materna en los estudiantes es la falta de apoyo psicosocial, la ausencia de una legislación que garantice la flexibilidad en el horario y la falta de estructura de las instituciones educativas.
Conclusión: se encontró que hay un esfuerzo materno en mantener la lactancia, pero esto resulta ser frágil ante las fuerzas que el entorno de estudios establece. Es evidente que la conciliación de la lactancia materna con los estudios depende de una red de apoyo y la posibilidad concreta para la mujer de ejercer esa práctica.

Palabras clave:

lactancia materna ; estudiantes ; destete ; promoción de la salud ; salud del niño.

Title:

Factors affecting breastfeeding use in female students:an integrative review

Abstract:

Purpose: to analyze factors affecting breastfeeding use in female students.
Methods: an integrative literature review using databases LILACS, IBECS and MEDLINE, from January to February 2015. The following inclusion criteria were used: indexation period 2004 to 2014; dealing with breastfeeding and students; and available in English, Spanish, or Portuguese.
Results: eleven papers fulfilling inclusion criteria were selected. Most studies used a descriptive approach (97%); a convenience sample was used in all investigations (100%). MEDLINE was the database that included the highest number of papers (100%). Major factor interfering breastfeeding in students are lack of psychosocial support, lack of legal regulation to guarantee timetable flexibility; and lack of structure in educational sites.
Conclusion: a maternal effort to use breastfeeding was found; however, it appears to be fragile due to the students' environment pressures. The reconciliation of breastfeeding and student life depends on a support network and the specific possibility for a woman to use it.

Keywords:

breastfeeding; students; weaning; health promotion, infant health.

Portugues

Título:

Factores que afectan a la práctica la lactancia materna en estudiantes mujeres: revisión integradora

Resumo:

Objetivo: analisar os fatores que interferem a prática da amamentação em mulheres estudantes.
Metodologia: trata-se de uma revisão integrativa da literatura cujo levantamento foi realizado nas bases de dados Lilacs, Ibecs e
Medline, no período de janeiro a fevereiro de 2015. Os critérios de inclusão foram: indexação do período de 2004 a 2014, que trabalhassem a relação do aleitamento materno e estudantes e que estivessem disponíveis nos idiomas inglês, espanhol e português.
Resultados: a amostra constituiu-se de 11 artigos que atenderam aos critérios estabelecidos. Houve um predomínio de estudos com abordagem descritiva (97%); em relação ao plano amostral todos foram por conveniência (100%). O periódico com maior veiculação de artigos foi a Medline (100%). Os principais fatores que interferem na prática da amamentação em estudantes são a falta de apoio psicossocial, ausência de legislação que garanta a flexibilidade no horário e a falta de estrutura das instituições de ensino.
Conclusão: verificou-se que há um esforço materno para manter a lactação, porém este mostra-se frágil diante das forças que o ambiente de estudo estabelece. Fica evidente que a conciliação da amamentação com os estudos depende de uma rede de apoio e possibilidade concreta para mulher exercer essa prática.

Palavras-chave:

aleitamento materno; estudantes; desmame; Promoção da saúde; saúde da criança.

Introdução
O leite materna é incontestavelmente o alimento ideal para o crescimento e desenvolvimento dos bebês, recomenda-se amamentação exclusiva nos primeiros seis meses de vida. Inúmeros são os benefícios que a amamentação proporciona, dentre eles estão à redução da taxa de mortalidade infantil, proteção contra alergias, prevenção de doenças crônicas não transmissíveis, melhor desenvolvimento cognitivo e estímulo ao vínculo afetivo entre a mãe e o bebê (1).
A amamentação exclusiva, embora amplamente vantajosa, apresenta índices baixos em todo o mundo. Um relatório realizado em 2017 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em colaboração com o Global Breastfeeding Scorecard- uma nova inciativa para aumentar as taxas globais de amamentação, mostrou que, dos 194 países avaliados, apenas 23 possuíam índice de amamentação exclusiva maior que 60%. Além disso, apenas 40% das crianças com menos de 6 meses de idade são amamentadas exclusivamente (2).
Apesar de todo empenho das organizações de saúde em promover a amamentação, o desmame precoce ainda é um desafio para saúde pública. Os altos índices de abandono da amamentação se relacionam com atributos fisiológicos e, principalmente com determinantes contextuais que a mulher esta inserida (3-5).
Nas ultimas décadas a inserção da mulher no ambiente de ensino ampliou-se, representando atualmente 63% dos ingressantes (6). Paralelo a isso, observou-se aumento de mulheres gravidas jovens, estando a maioria ainda inseridas em escolas ou em universidades, o que acaba interferindo de forma bastante expressiva na instituição e continuidade da amamentação (7). A dificuldade em conciliar as atividades extra lar e a inadequação e ou ausência de suporte no ambiente doméstico e de ensino, torna a continuidade da amamentação uma atividade difícil de ser superada (8,9).
Poucos são os países que possuem legislação que regulamentam a licença maternidade nas instituições de ensino. No Brasil, a mulher tem direito a afastamento a partir do oitavo mês de gestação e durante três meses a estudante em estado de gravidez ficará assistida pelo regime de exercícios domiciliares (10,11). Em suma essa lei dá direito a estudante a usufruir de 120 dias ininterruptos, sem a obrigatoriedade de comparecer na instituição de ensino para realizar provas ou aulas práticas, que deverão ser garantidas no seu retorno.
É de grande importância que durante as consultas de pré-natal essas mulheres sejam informadas sobre os benefícios e das técnicas corretas de amamentação, desvantagens do uso das fórmulas lácteas, para que se aumente a confiança e habilidades dessas mães estudantes, estimulando-as a não abandonar o aleitamento materno mesmo com um ambiente de ensino para enfrentar. É importante que a gestante conheça as leis que as protegem, para que assim possam usufruir de seus direitos mesmo que enquanto estudantes (11).
Diante desse contexto, o enfermeiro assume papel importante no que diz respeito a prática da amamentação, o qual detém conhecimento técnico e cientifico adequado para o padrão de estabelecimento de um padrão para a alimentação do lactente. Suas intervenções devem enfocar os benefícios nutricionais, emocionais, fisiológicos e imunológicos, embasados em justificativas cientificas (12).
Apesar de ser foco em vários estudos na área da saúde, a amamentação ainda apresenta muitas lacunas. Levando em consideração que a amamentação exclusiva depende de vários fatores, entre eles biológicos, sociais, culturais, econômicos e políticos, o presente estudo visa analisar as evidências científicas acerca das barreiras encontradas pelas mulheres estudantes no processo da amamentação.

Metodologia
Trata-se de uma revisão literatura, método que permite sintetizar os resultados de estudos com temática idênticas ou similares para desenvolver uma explicação abrangente de um determinado fenômeno, com propósitos teóricos e/ou intervencionistas. A sua construção foi norteada por seis etapas, são elas a elaboração da pergunta norteadora (quais os fatores que interferem a prática da amamentação em mulheres estudantes?), busca na literatura, coleta de dados e categorização dos estudos, analise critica, discussão dos resultados e apresentação da revisão integrativa (12).
Na segunda etapa, busca das publicações cientificas, foram adotadas como fontes de informação as bases eletrônicas Lilacs, Ibecs e Medline. Os critérios de inclusão utilizados foram: artigos publicados entre 2004-2014 (de janeiro de 2004 a dezembro de 2014), teses e dissertações, em português, inglês e espanhol, disponível na integra e que respondessem à pergunta norteadora. Foram excluídos editoriais, resumos de pesquisa, avaliações econômicas e artigos de jornal que não apresentavam caráter cientifico.
A busca das publicações ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2015, utilizando a combinação dos descritores “Aleitamento Materno” e “Estudantes”, ambos encontram-se incluídos nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e suas respectivas traduções padronizadas no Medical Subejct Heading (MESH): BreastFeeding/Lactancia Materna e Students/Estudiantes. Incialmente foi realizada a busca dos descritores individualmente. Posteriormente, foram realizados cruzamentos, utilizando o operador booelano and, entre os descritores: aleitamento materno e estudante.
Após os cruzamentos, foram encontradas 93 publicações. Aquelas que se repetiram foram computadas considerando a seguinte ordem hierárquica: Medline, Lilacs e Ibecs (Tabela 1).
Para a seleção das publicações, primeiramente foram lidos todos os títulos dos estudos. Nas publicações em que os títulos possuíam algum descritor e/ou palavras que remetessem ao objetivo da revisão integrativa, os resumos (20) foram analisados. Aqueles resumos que contextualizassem os objetivos do presente estudo, as publicações (11) eram lidas na íntegra. Destas, foram selecionados 11 estudos, os quais respondiam à questão norteadora e atendiam aos critérios de inclusão determinados, estando disponíveis nas bases de dados Medline (11) Portanto, das 93 publicações iniciais, apenas 11 artigos constituíram a amostra final (Figura 1).
Na terceira etapa, coleta de dados, utilizou-se um instrumento adaptado proposto por Rodrigues et al. (13) contemplando os seguintes aspectos: referência, objetivo, tipo de estudo, plano amostral e tipo de evidência. Os resultados, que resultaram do conteúdo produzido, foram agrupados por proximidade temática.
Na etapa de análise de publicações (quarta etapa), foi avaliada o rigor metodológico, considerando a clareza na descrição dos métodos utilizados, sujeitos participantes, critérios de inclusão/exclusão, intervenção, resultados, limitações e vieses.
A quinta, e última etapa, é composta pela discussão dos resultados, sendo apresentada de forma descritiva, possibilitando a identificação das evidencias e a necessidade de outras pesquisas que possam subsidiar a prática do aleitamento materno por estudantes.

Resultados
O idioma de publicação que mais predominou foi o inglês (10) seguido do português (1), não sendo encontrado nenhum artigo na língua espanhola. Em relação ao ano de publicação, a maior concentração sobre a temática se deu nos anos de 2005, 2009, 2012 e 2013, com dois artigos cada (67%), seguido dos anos de 2007, 2008, 2011 e 2014, contendo uma publicação cada (33%). Os anos de 2004, 2006 e 2010 não tiveram publicações selecionadas referentes à temática. O Quadro 1 apresenta um breve resumo destes estudos.
Da amostra, 8.5% (1) dos trabalhos foram publicados na área da dermatologia, 16,5% (2) na área da nutrição, 8,5% (1) na área da nutrição e obstetrícia e 66,5% (8) na área da enfermagem.
No tocante ao delineamento metodológico, percebeu-se que 91,7% (10) apresentaram abordagem descritiva e 8,3% (1) apresentou abordagem qualitativa.
Quanto ao plano amostral definido para os estudos, 100% (11) consistiam em amostragem por conveniência. Em relação aos critérios considerados para composição da amostra, 100% (11) apresentaram critérios para arrolar os sujeitos na pesquisa. No que concerne as limitações e possíveis vieses, notou-se que 100% (11) dos artigos não apresentavam tais informações.
Dentro da classificação hierárquica metodológica proposta pela Prática Baseada em Evidências (PBE), 100% (11) das publicações foram classificadas com nível de evidência 6, os quais correspondem a único estudo descritivo ou qualitativo.
O Quadro 2 mostra os principais resultados encontrados, que de um modo geral, identificaram a falta de apoio psicossocial, a ausência de legislação que garanta flexibilidade no horário e a falta de infraestrutura nas instituições de ensino como os principais fatores que interferem a pratica da amamentação em estudantes.
Discussão
Observou-se a relevância do objeto investigado para o cenário nacional e internacional, haja vista o impacto dessa investigação para o fortalecimento da amamentação nas instituições de ensino e por disparar novos horizontes e linhas investigativas. O número de artigos sobre o tema ainda é bastante restrito, principalmente no Brasil, cujas legislações existentes incentivam o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e o complementado até os dois anos ou mais (14,15).
Os resultados demostram que as condições oferecidas pelas instituições de ensino as estudantes em processo de amamentação tem favorecido o desmame precoce, já que grande parte não oferece infraestrutura adequada e um estatuto que apoie as nutrizes. No entanto, alguns dos estudos analisados abordaram outras questões que vão além dos limites institucionais, evidenciando a necessidade de uma rede de apoio psicossocial para o fortalecimento do AM nessa população (16-18).
Dentre os trabalhos contemplados na revisão, notou-se que eles foram publicados em sua maioria (66,5%) na área de enfermagem, o que demonstra a preocupação da área na temática abordada. Desses estudos, percebeu-se que apenas dois foram publicados no Brasil, o que pode esta relacionado a falta de políticas públicas no país para esse público-alvo (19,20). Diante disto é de suma importância que os profissionais de enfermagem participem ativamente do processo da amamentação, no tocante a realização de atividades educativas, incentivo e apoio à nutriz, bem como apoia-la nas dificuldades que surgirão ao longo do processo.
Não foi possível observar a categoria profissional que mais publicou sobre a prática da amamentação em estudantes, possivelmente porque se trata de um tema de investigação inerente ás profissões de caráter universal.
Outro aspecto observado foi em relação ao nível de evidencia cientifica, onde a maioria dos artigos foi classificada como fraca, pois seu delineamento metodológico pautou-se em estudo descritivo.
Quanto à questão norteadora, pôde-se observar que os fatores que interferem a prática da amamentação em mulheres estudantes são abordados de forma convergente nos estudos, onde foram verificados como nós críticos a falta de apoio psicossocial, falta de estrutura nas instituições de ensino, falta de legislação específica e a falta de conhecimento por parte das estudantes da lei que as protegem (21-24).

Conclusão
O aleitamento materno é uma atividade complexa, que envolve não só o querer amamentar; é um entrelaçamento do físico, do psíquico e do contexto social da mulher. Portanto, o apoio a estudante que está amamentando é fundamental para que a mesma possa amamentar de forma exclusiva até os seis meses e após o retorno das atividades fora do lar. Desta forma, o conhecimento das dificuldades relacionadas à amamentação em estudantes que retornam as suas atividades acadêmicas e/ou escolares, deveria ser considerada em todos os momentos da assistência prestada a ela, tanto nos serviços de saúde como nas instituições de ensino, durante todo o ciclo gravídico-puerperal. Diante disto, cabe aos profissionais de saúde, principalmente a enfermagem, a orientação e o apoio às essas mulheres, como forma de evitar o desmame precoce.
A partir desta revisão pode-se concluir que há um esforço materno para manter a lactação, porém este se mostra frágil diante das forças que o ambiente de estudo estabelece em que as decisões e necessidades dessas mulheres perdem diante das imposições das regras da sociedade. Fica evidente que a conciliação da amamentação com os estudos depende de uma rede de apoio e possibilidade concreta para mulher exercer essa prática.
Dos trabalhos selecionados, percebeu-se que a maioria trouxe uma reflexão acerca do papel da instituição de ensino na rede de apoio psicossocial, que deve se constitui como uma das principais formas de evitar o desmame precoce em estudantes. Vale salientar que os artigos evidenciam a necessidade de uma reforma institucional e política, já que as estudantes se sentem desamparadas por falta de estrutura institucional e pela legislação em vigor.
Vale ressaltar que objeto pleiteado nesta revisão é relativamente novo e que muitos dos estudos realizados vem cumprindo o papel de descrever novas realidades e difundir as experiências de estudantes em processo de amamentação.
Espera-se que as indagações erigidas no presente estudo possam fomentar novas investigações a cerca da temática explorada, para que desta forma sejam determinadas os tipos de intervenções mais eficazes para apoio a amamentação no ambiente de ensino.