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ENERO 2021 N° 1 Volumen 11

Liderança em Enfermagem durante a Pandemia da COVID-19

Sección: Editorial

Autores

Alacoque Lorenzini Erdmann

Dra. em Filosofia da Enfermagem, Pesquisadora 1A do CNPq, Professora Titular e Vice-Reitora da UFSC

Em 2020, pleno Ano Internacional da Enfermagem e diante de um dos maiores desafios sanitários deste século, os trabalhadores da Enfermagem de todo o mundo deparam-se com a necessidade de mostrar suas competências ao reestruturar seus serviços e aprender um novo fazer, em caráter emergencial! Sim, está sendo um novo fazer centrado ainda em desconhecimentos sobre o tratamento mais acertado, a cura e as sequelas ou cronicidade e efeitos que essa doença pode causar. A vacina já está a caminho.

Assim, venho expressando e vivenciando essa realidade. A Enfermagem que sempre teve sob seu domínio os cuidados de limpeza, assepsia, desinfecção, esterilização, isolamento protetor, cuidados de biossegurança, dentre outros, orientados pelos princípios científicos de enfermagem, trazidos ao longo da história da sua prática profissional. Neste ano depara-se com a perda e adoecimento de tantos profissionais, em maior número em relação aos demais profissionais da saúde, que atuam na chamada “linha de frente”. Assim, questiona-se: será que o fato de ser a profissão que mantém maior quantidade de contatos com o paciente durante uma jornada de trabalho, corre maior risco de contaminação? Será que medidas seguras de biossegurança não protegem com total segurança? Mas, afinal, não somos os maiores estudiosos de segurança do paciente e dos trabalhadores da saúde e enfermagem? Será que o uso correto dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) está sendo inadequado ou insuficiente para conter a contaminação por esse vírus? Os nossos conhecimentos e práticas sobre virologia e microbiologia não nos protegem o suficiente? O controle da vigilância sanitária está dando conta de impedir a transmissão deste vírus para a população? Enfim, são muitas as dúvidas, desconhecimentos e modos de cuidar o mais seguro possível! Cuidar de pessoas em estado de saúde grave ou gravíssimo, internadas em hospitais, em clínicas ou unidades de terapia intensiva ou em serviços de pronto atendimento, todos readaptados para atenção à pessoas com Covid-19, em hospitais de campanha, ou praticar o cuidado remoto no domicílio, dentre outros, vem sendo um grande desafio!

É nesse contexto que as lideranças científicas, educacionais ou acadêmicas, de classe e organizações da categoria profissional, de gestão das práticas de cuidados nas instituições de saúde, de medidas de vigilância em saúde, de políticas públicas e sociais e lideranças governamentais deparam-se com a necessidade em caráter emergencial de propor e implementar estratégias para uma atuação mais efetiva frente a realidade apresentada. Estas, permearam múltiplas dimensões: pessoal, familiar, equipe de trabalho, ambiente de prática profissional e vida social de sua comunidade mais próxima. Aparecemos na mídia com orientações sobre cuidados à população e fomos desafiados a buscar mais informações e produzir rapidamente novas soluções.

Surgiram os Planos Estratégicos de Enfrentamento da Pandemia e mais uma vez as frentes eram tantas que não conseguimos marcar presença com todo o preparo, domínio e potencial que possuímos. Apesar do seu potencial de liderança, nem sempre enfermeiros têm a oportunidade de trabalhar com o máximo de suas capacidades e competências para participar e influenciar na tomada de decisões nos serviços de saúde e no âmbito político de forma mais ampla (1).

Enfermeiros tradicionalmente destacam-se na liderança de seus colegas e outros profissionais, bem como das suas equipes e seus pacientes rumo a uma saúde melhor e a estilos de vida mais produtivos e saudáveis. No contexto da pandemia de COVID-19, a liderança do enfermeiro tem-se mostrado um diferencial para no suporte emocional da equipe de saúde em um período turbulento. Os profissionais de saúde desejam uma liderança visível, que entenda suas fontes de preocupação e busque abordagens que possam atenuá-las na medida do possível (2).

O relatório “The State of the World’s Nursing 2020”, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN), indica que há aproximadamente 28 milhões de enfermeiros, o que representa mais da metade de todos os profissionais de saúde no mundo, prestando serviços vitais em todo o sistema de saúde. Este relatório traz também evidências sobre a necessidade do fortalecimento da liderança em enfermagem, por meio de capacitações e maiores oportunidades de desenvolvimento e participação nas organizações e sistemas de saúde (3).

Outro aspecto que merece ser pontuado é que junto a tudo isso, o pânico, a depressão, a presença de sinais e sintomas desconhecidos sobre COVID-19, a desconfiança, o medo, a insegurança, as necessidades de apoio pelo coletivo, Estado e Nação estão cada vez maiores, mas a esperança precisa ser mantida para suportar a crise. Ainda, o modo como os dados de saúde foram e vem sendo registrados e informados à população, logo no início acompanhados de perplexidade e com o decorrer do tempo, hoje, já parece quase que “normalidade”. Parece que pouco assusta ou preocupa no sentido da população manter os cuidados de biossegurança e a proteção da população mais desprotegida ou que vivem em circunstância de maior risco.

E a Enfermagem, como vem dando conta? Cada qual, dentro dos seus espaços de atuação tem feito o melhor possível, como guerreiras e protetoras da vida e da saúde do cidadão. Os profissionais de enfermagem está sempre presente e cumprindo com muita determinação e compromisso social a sua missão, de profissional exemplar da saúde, fazendo tudo o que está no seu alcance e buscando mediar todas as necessidades do cidadão para melhor servi-los. Também, como alternativa, intensificou-se o uso da comunicação via sistemas de informação e comunicação com tudo para novas práticas de “teles-atividades”, inclusive como modalidades de ensino na enfermagem de forma remota e/ou online (4).

Porém, cabe questionar: isso é adequado e suficiente? Talvez sim, todavia, precisamos de muito mais, pois estamos enfrentando a transição da modernidade para a contemporaneidade, o diferente, o plural, o antagonismo, a diversidade e a complementaridade, ao olhar mais atento e aberto para o desconhecido ou ainda não dominado. É momento de atentarmos para nossos vazios de conhecimentos e darmos um salto de qualidade e quantidade para sermos uma profissão com domínio científico avançado! Da importância do sentido e valor da vida, do ter melhor qualidade de vida e prazer de viver como seres humanos evoluídos e civilizados. O momento para revisitar os valores da sociedade e projetarmos a importância da nossa profissão é agora!

Quais estratégias precisamos estabelecer e implementar para fortalecer a nossa profissão, consolidar a nossa ciência, avançar de modo mais intenso na produção de inovação tecnológica, formar profissionais com maior domínio clínico e mais engajado politicamente, e promover novas políticas internas e no contexto da atenção à saúde, em diferentes espaços e continentes? Como a Enfermagem poderá estar mais visível e valorizada, tendo melhores condições de trabalho e maior espaço político de respeito ao seu potencial e competências para cuidar da saúde do ser humano na sua integralidade e em condições de ter melhor saúde e melhor viver? Como fortalecer nossas lideranças para conquistar mais espaços e marcar presenças nos diferentes segmentos da organização da sociedade?

Historicamente, a Enfermagem é a profissão na vanguarda do enfrentamento a epidemias e pandemias. Diante da COVID-19, não tem sido diferente! Os profissionais estão mostrando sua compaixão, determinação e coragem. Esse trabalho precisa e deve ser reconhecido pela sociedade! As contribuições da Enfermagem diante do momento desafiador vivido podem ser ainda maiores se os espaços e as oportunidades de liderança e governança forem maximizados. E, isso junto a busca contínua dos enfermeiros em explorar seus potenciais e atitudes, aprimorar suas habilidades, competências e domínios para ser líder, visionário, empreendedor social e político, co-partícipe da construção desta nova realidade com novos modos de ser e de viver.

O momento é agora! Temos ciência de enfermagem, tecnologia e arte de cuidar, prática social e política altamente resolutiva, objeto de conhecimento e de prática de domínio específico do nosso fazer e vital para o cuidado da saúde e sobrevivência do ser humano! Somos indispensáveis e parte importante do sistema de saúde de uma sociedade! Confiamos em nossas forças pois elas são poderosíssimas! A humanidade confia e espera muito de nós, profissionais de Enfermagem! Estratégias e atitudes sábias e bem pensadas e planejadas! A Enfermagem pode muito, pode ser muito mais!...


Nota: Registro os agradecimentos à Dra Gabriela Marcellino de Melo Lanzoni e ao Dr. José Luís Guedes dos Santos pelas contribuições na completude deste Editorial pelos domínios de liderança, governança e gestão do cuidado de enfermagem e saúde.

Bibliografía

  1. Kennedy A. Wherever in the world you find nurses, you will find leaders. Rev. Latino-Am. Enfermagem [internet]. 2019 [citado 16 dic 2020]; 27:e3181. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692019000100204&lng=pt
  2. Shanafelt T, Ripp J, Trockel M. Understanding and Addressing Sources of Anxiety Among Health Care Professionals During the COVID-19 Pandemic. JAMA. 2020; 323(21):2133.
  3. World Health Organization (WHO). State of the World’s Nursing Report 2020 [internet]. Geneva: WHO; 2020. [citado 16 dic 2020]. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240003279.2020
  4. Costa R, Lino MM, Souza AIJ, Lorenzini E, Fernandes GCM, Brehmer LCF, et al. Nursing teaching in COVID-19 times: how to reinvent it in this context? Texto Contexto Enferm. [internet]. 2020 [citado 16 dic 2020]; 29:e20200202. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072020000100102&lng=pt