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ENERO 2015 N° 1 Volumen 5

Análise da acessibilidade masculina aos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) em um município do Nordeste da Bahia, Brasil

Sección: Originales

Cómo citar este artículo

Dantas dos Santos A, Santos Menezes L, Moura Silva G, Bezerra Santos M, Dantas dos Santos AM. Análise da acessibilidade masculina aos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) em um município do Nordeste da Bahia, Brasil. Rev. iberoam. Educ. investi. Enferm. 2015; 5(1):26-34.

Autores

1Allan Dantas dos Santos, 2Luciano Santos Menezes, 3Glebson Moura Silva, 4Márcio Bezerra Santos, 5Ana Maria Dantas dos Santos

1Mestre em Biologia Parasitária. Docente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Aracaju-Sergipe, Brasil.
2Bacharel em enfermagem pela Faculdade AGES/Brasil.  
3Mestre em Saúde e Ambiente. Docente do Departamento de Enfermagem, Universidade Federal de Sergipe (UFS).
4Mestre em Biologia Parasitária. Docente do Departamento de Educação em Saúde, Universidade Federal de Sergipe (UFS).
5Assistente Social, especialista em Saúde da Família e Políticas Públicas com foco em Gênero e Raça. Docente da Universidade Tiradentes/Brasil. Aracaju-Sergipe, Brasil.

Contacto:

Email: allanufs@hotmail.com

Resumen

Introducción: el objetivo del estudio fue evaluar los factores socioculturales que impiden a los hombres el acceso a los servicios de Atención Primaria de Salud (APS) en un municipio en el noreste de Bahía, Brasil.
Método: se trata de un estudio exploratorio y descriptivo, con enfoque cuantitativo. La muestra, con método de muestreo aleatorio simple, fue de 102 usuarios del sexo masculino de 20 a 59 años, adscritos a la Estrategia de Salud de la Familia (ESF). El instrumento de recolección de datos fue una entrevista semiestructurada. Todos los análisis estadísticos se realizaron con el programa BioEstat (Versión 5.0).
Resultados: la mayoría de los encuestados no conocen al equipo multidisciplinario de la Estrategia de Salud de la Familia (ESF) al cual pertenece. La demanda de asistencia sanitaria primaria se limita a las condiciones de enfermedad. El 97,06% de los hombres no conocen la atención o no la solicitan, alegando como principales impedimentos motivos como horario de atención (55,88%), temor a descubrir alguna enfermedad (9,81%) y los prejuicios (2,94%).
Conclusión: es necesaria la divulgación y el desarrollo de actividades de promoción de la salud humana con el fin de reducir las bajas tasas de acceso masculino a las Unidades de Salud de la Familia (USF).

Palabras clave:

Accesibilidad a servicios de salud ; salud masculina ; Atención Primaria de salud ; promoción de la salud

Title:

Learning assessment strategies applied to undergraduate nursing education in Brazil

Abstract:

Introduction: The study was aimed at assessing sociocultural factors preventing men from accessing Primary Care (PC) services in Bahía, a North-Eastern Brazilian town.
Methods: An exploratory, descriptive study was carried out using a quantitative approach. A simple random sampling method was used to recruit 102 men aged 20 to 59 years assigned to the Family Health Strategy (FHS). Data collection was based on semi-structured interviews. All statistical analyses were performed with the statistical package BioEstat (release 5.0).
Results: Most respondents did not know the multidisciplinary team they were assigned to within the Family Health Strategy (FHS). Primary care demands were limited to disease conditions. Most men (97.06%) do not know or do not request available healthcare, the most commonly alleged reasons being inappropriate opening times (55.88%), fear of a disease being found (9.81%), and prejudices (2.94%).
Conclusion: Human health promotion activities should be developed and details on them should be disseminated in order to improve the current poor rates of access to Family Health Units (FHU) by men.

Keywords:

Healthcare services accessibility; men health; Primary Care; health promotion

Portugues

Título:

Análisis de accesibilidad masculina a los servicios de Atención Primaria de Salud (APS) en una ciudad del Nordeste de Bahía, Brasil

Resumo:

Introdução: o estudo objetiva conhecer os fatores socioculturais que inviabilizam a acessibilidade dos homens aos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) em um município do nordeste da Bahia, Brasil.
Método: trata-se de um estudo exploratório e descritivo com abordagem quantitativa. A amostra, aleatória simples randomizada, correspondeu a 102 usuários do sexo masculino na faixa etária de 20 a 59 anos, adscritos na Estratégia Saúde da Família (ESF). O instrumento de coleta de dados foi a entrevista semiestruturada. Todas as análises estatísticas foram realizadas no programa BioEstat (Versão 5.0).
Resultado: grande parte dos entrevistados não conhece a equipe multidisciplinar da Estratégia de Saúde da Família (ESF) a qual pertence; a procura pela atenção primária a saúde está restrita a condições de doença; 97,06% dos homens não conhecem ou não procuram a ESF alegando horário de atendimento (55,88%), medo de descobrir alguma doença (9,81%) e preconceito (2,94%) como principais fatores impeditivos.
Conclusão: faz-se necessário a divulgação e o desenvolvimento de atividades voltadas para a promoção da saúde do homem a fim de reduzir os baixos índices de acesso masculino às Unidades de Saúde da Família (USF).

Palavras-chave:

Acessibilidade a os serviços de saúde; saúde do homem; Atenção Primária à saúde; Promoção da saúde

Introdução

Os agravos do sexo masculino constituem um verdadeiro problema de saúde pública, sendo um desafio para o Sistema Único de Saúde (SUS). Estudos mostram que os homens são mais vulneráveis a doenças em relação às mulheres, e que também morrem mais precocemente. O alto índice de morbimortalidade nos homens está ligado a não procura pelos serviços primários de saúde, pois o estereótipo de masculinidade compromete o acesso aos serviços e à adesão ao tratamento (1).

Desta forma, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) como provedoras de ações de promoção de saúde, proteção e prevenção de agravos, através de programas e serviços destinados a toda a população, adquiriu uma imagem de oferta de serviços destinados exclusivamente a mulheres, crianças e idosos, como conseqüência, tem-se a baixa procura masculina nas UBS. A não procura masculina pelos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) faz com que o indivíduo fique privado da proteção necessária à preservação de sua saúde. Muitos agravos poderiam ser evitados, se os homens realizassem, com regularidade, atividades de prevenção primária.

Sendo assim, a efetivação de ações de atenção à saúde do homem voltada à prevenção de agravos, diagnóstico, tratamento, reabilitação, manutenção, promoção e proteção da saúde tem representado um desafio para os profissionais da área da saúde. Todavia, o reconhecimento de que a população masculina acessa o sistema de saúde por meio da atenção especializada requer mecanismos de fortalecimentos e qualificação da atenção primária, para que a atenção à saúde não se restrinja à recuperação, garantindo, sobretudo, a promoção da saúde e a profilaxia a agravos evitáveis.

Assim, trazer a discussão da temática homem e saúde, no contexto da organização e da oferta das ações e serviços de atenção à saúde, vislumbra a necessidade de conhecer as transformações sociais, econômicas e culturais que vêm ocorrendo nas políticas de saúde no Brasil e no mundo, as quais têm proporcionado novas mudanças e olhares quanto às prioridades de atenção com foco na abordagem preventista, coletiva e integral.

Deste modo, o Ministério da Saúde (MS) dá origem à Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) (2), com a finalidade de promover uma melhor efetivação das condições de saúde da classe masculina da sociedade brasileira, cooperando, de forma positiva, para a decadência da morbimortalidade dessa população, por meio do afrontamento aos fatores de risco e mediante uma facilidade de acesso às ações e aos serviços de assistência integral à saúde. Além de evidenciar os primordiais fatores de morbimortalidade na saúde do homem, essa política traz à tona a identificação dos determinantes sociais que redundam na problemática de saúde da população masculina, avaliando que as representações sociais sobre a virilidade comprometem o acesso à atenção básica, bem como refletem, de modo crítico, na vulnerabilidade dos homens.

Nessa ótica, a saúde do homem perpassa por um conjunto de ações de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde, executadas nos seus diferentes níveis de atenção. No entanto, deve-se priorizar a atenção primária, com foco na Estratégia de Saúde da Família (ESF), por ser a porta de entrada do sistema de saúde integral, com a intenção de reduzir a morbimortalidade dessa população, por meio do enfrentamento racional dos fatores de risco e mediante a facilitação ao acesso.

Os indicadores epidemiológicos relativos à mortalidade vêm demonstrando que a faixa etária no ciclo vital da classe masculina é menor que a das mulheres. Paradoxalmente, é notório que muitos desses casos poderiam ser evitados casos que houvesse uma maior participação dos profissionais e das instituições públicas. Contudo, a insuficiente adesão do homem APS não somente aumenta os investimentos da sociedade (poder público), como também aumenta o sofrimento emocional, físico dos pacientes e familiares, na busca da recuperação da saúde e do retorno da qualidade de vida pré-existente (2).

Nesta perspectiva, o presente estudo objetivou conhecer os fatores socioculturais que inviabilizam a acessibilidade do homem à Atenção Primária à Saúde no município de Paripiranga/Bahia/Brasil.

Métodos

Trata de um estudo exploratório e descritivo, com abordagem quantitativa. A pesquisa foi realizada no município de Paripiranga, situado no nordeste do Estado da Bahia, Brasil, localizada a 366 km da capital Salvador, com área de 436 km², população de aproximadamente 27.778 habitantes (3). Na sua rede de assistência à saúde, o município possui um Centro de Saúde com quatro Equipes de Saúde da Família. O cenário escolhido foi a área de abrangência de uma dessas equipes. A amostra, aleatória simples por randomização, correspondeu a 102 usuários do sexo masculino, cadastrados na referida ESF.

Os critérios de inclusão do estudo foram: serem usuários do sexo masculino com faixa etária entre 20 a 59 anos; serem cadastrados e acompanhados pela ESF; aceitarem participar espontaneamente do estudo assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

O instrumento utilizado foi a entrevista semiestruturada contendo perguntas fechadas. Para detectar erros na confecção dos questionários e validá-los foi realizado um teste piloto com 10 usuários (4). As análises estatísticas foram realizadas no programa BioEstat (Versão 5.0).

A presente pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética e pesquisa da Faculdade AGES/BA, com protocolo CEP 019/2012, atendendo aos trâmites legais que determinam os princípios da Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, sobre a ética das pesquisas com seres humanos e a Resolução Nº 311/2007, do Conselho Federal de Enfermagem.

Resultados e discussão

Caracterização dos sujeitos do estudo

A Tabela 1 apresenta as variáveis referentes ao perfil dos sujeitos da pesquisa.

Neste estudo, observou-se prevalência na faixa etária de 30 a 39 anos (35,30%); casados (72,54%) e com renda até 01 salário mínimo (49,90%). A maioria dos entrevistados (42,16%) tem o ensino médio completo e estão empregados (45,10%).

Os hábitos de vida foram analisados levando em consideração três elementos essências para a compreensão do estilo de vida adotado pelo indivíduo, que são: o consumo de bebida alcoólica, o tabagismo e a prática de atividade física. Conforme observa-se na Tabela 2, 68,62% entrevistados consumiam bebida alcoólica e 91,18% não fumam. Já no quesito atividade física diária, apenas 30,40% dos homens faz algum tipo de atividade física. Dados epidemiológicos sobre o uso de álcool no Brasil (5) corroboram com o presente estudo, já que 68,62% afirmaram que bebem diariamente. Já no tocante ao consumo de cigarros, os entrevistados desse estudo não apresentaram semelhanças com as estatísticas, quando cerca de 24,6 milhões de brasileiros de 15 anos ou mais de idade fumavam derivados de tabaco, o que correspondia a 17,2% da população nessa faixa etária. Os percentuais de fumantes eram maiores entre os homens (21,6%), de 45 a 64 anos de idade (22,7%).

No que se refere à prática de atividade física observou-se que 69,60% dos entrevistados não fazem atividade física diária, colocando-os numa margem de risco em relação ao desenvolvimento de doenças.

Acessibilidade e motivos de não procura pelos serviços de atenção primária à saúde

A Tabela 3 retrata o conhecimento dos entrevistados frente ao Sistema Único de Saúde (SUS) e da Estratégia de Saúde da Família (ESF). Apenas 8,82% alegaram não conhecer o SUS. Com a universalização da saúde, o SUS passou a atender a grande parte da população e ser do conhecimento da maioria dos brasileiros.

Como se sabe, o processo de implementação da ESF não aconteceu ao mesmo tempo como o SUS e seu processo de difusão ainda não é de conhecimento de todos. Na presente pesquisa, ainda na tabela 2, 53,93% dos homens não conhecem os agentes comunitários de saúde, dificultando, assim, o acesso à informação e à prevenção de doenças no contexto da atenção primária à saúde. No quesito conhecer o médico da ESF somente 8,83% dos entrevistados referiram ter conhecimento. A importância de conhecer os profissionais de saúde está na possibilidade de uma maior interação entre o homem e os profissionais de saúde, Figueiredo (6) já afirmava que era necessário pensar também um maior número de profissionais do sexo masculino atuando nas ESF, para isso funcionar como um motivador para o acesso do homem nas unidades de atendimento primário.

Diante disse, Lora (7), na sua pesquisa a respeito da acessibilidade aos serviços de saúde, enfatiza que a forma de atuação diretamente inserida na comunidade, dos serviços de saúde, o conhecimento mais profundo da realidade local, a presença do agente comunitário e a visitação domiciliar, enfim, o vínculo criado entre a equipe multidisciplinar e a comunidade pode ser um diferencial importante na melhoria da qualidade da atenção.

Schraiber e colaboradores (8) destacam que a APS – porta de entrada principal aos serviços de saúde – é marcadamente dirigida aos problemas de saúde das mulheres, pois prevenção e cuidado em saúde são socialmente caracterizados como tarefas essencialmente femininas. Essa mesma lógica estrutura os serviços, ações e interlocuções entre profissionais de saúde e usuários, reproduzindo relações tradicionais de gênero.

O não conhecimento dos entrevistados com relação ao SUS e à ESF fere ao princípio e a diretriz da Lei nº. 8080, de 1990, (9) quando estabelece que: “V - direito à informação, às pessoas assistidas, sobre sua saúde; VI - divulgação de informações quanto ao potencial dos serviços de saúde e sua utilização pelo usuário”. Além de ser imperativo que os profissionais de saúde estejam atentos às necessidades da classe masculina, buscando assim o envolvimento dos mesmos nestas unidades assistenciais.

Tais relações, como observado por Figueiredo (6), Gomes et al (10) e por Nascimento & Gomes (11), repousam em representações sociais que veem os homens como portadores de menos necessidades em saúde do que as mulheres, expressas exemplarmente na figura do chefe de família provedor, dedicado ao trabalho e que raramente adoece, o que os pode levar a negligenciar sua saúde.

Nos aspectos estruturais, há pouco investimentos na organização do serviço em uma perspectiva de gênero, reforçando o senso comum de que os homens não são usuários da atenção primária, por isso reprimem suas necessidades de saúde e apresentam dificuldades para expressá-las, procurando menos o serviço que as mulheres (11,6,12).

A compreensão das barreiras institucionais é importante para a proposição estratégica de medidas que venham a promover o acesso dos homens aos serviços de atenção primária, que deve ser a porta de entrada ao sistema de saúde, a fim de resguardar a promoção e a prevenção como eixos fundamentais de intervenção (1).

De acordo com o Gráfico 1, apenas 2,94% dos entrevistados na pesquisa procuram a ESF, enquanto 97,06% dos homens não procuram. Ao questionar os entrevistados se conheciam algum programa de saúde voltado para os homens, o resultado foi alarmante, pois 97,06% deles responderam não conhecer conforme mostra Gráfico 2.

Este resultado reafirma Gomes (13), quando enfatiza que os serviços de saúde também são considerados pouco aptos em absorver a demanda apresentada pelos homens, pois sua organização não estimula o acesso e as próprias campanhas de saúde pública não se voltam para este segmento, ou seja, o homem não tem acesso porque não há uma divulgação de programas voltados para atenção a saúde masculina, tornando, cada vez mais, os ambientes dessas unidades feminizados. Logo, observa-se que há uma necessidade de maior divulgação das informações e companhas a respeito dos serviços destinado a classe masculina.

Contrapor à procura masculina às unidades de saúde com o perfil feminino reforça, em dados, o impacto que a educação machista ao longo dos anos traduz, que somente a mulher precisa de cuidados com a saúde. Ao questionar a opinião masculina de quem cuida mais da saúde, homens ou mulheres, foram quase que unânime a opinião dos entrevistados, pois 98,04% responderam que as mulheres cuidam mais da saúde.

Na perspectiva de gênero deve-se também ser pensado o espaço das UBS. A idéia dos serviços de saúde como um espaço feminilizado precisa ser transformada de modo a incluir as necessidades de saúde dos homens. Isto não significa necessariamente apenas a mudança nos percentuais de trabalhadores homens e mulheres nesses serviços, nem muito menos a criação de serviços de saúde específicos para a população masculina conforme cita Figueiredo (6). Ainda com o mesmo autor, é sabido que os homens têm dificuldade em reconhecer suas necessidades, e por vezes, busca ofertas de serviço com um ambiente inteiramente destinado para estratégias que privilegiam as ações de saúde para a criança, o adolescente, a mulher e o idoso. Esses fatores incorporam ainda mais o pensamento masculina, que rejeita a possibilidade de adoecer, pois o homem tem a obrigação de se mostrar forte como foi pregado socialmente.

Assim, todas as informações obtidas pelos questionamentos em relação à realização de consultas e exames por parte dos homens, corrobora com Gomes (13), quando identifica que o ser homem seria associado à invulnerabilidade, força e virilidade, e, essas características são incompatíveis com a demonstração de sinais de fraqueza, medo, ansiedade e insegurança, representada pela procura aos serviços de saúde, conforme é retratado no Gráfico 3 ao questionar há quanto tempo realizou uma consulta médica, onde 87,25% dos entrevistados referiram nunca ter realizado.

Nesse estudo, ao questionar os motivos que impedem os homens a procurar os serviços da APS, 55,88% alegaram fatores institucionais no sentido de organização do horário de funcionamento da UBS pois não atendem às necessidades do grupo masculino; nenhum dos entrevistados alegou questões de masculinidade; 9,81% dos homens confessaram o medo de descobrir doenças e apenas 2,94% deles apontaram o preconceito como motivo para não procura dos serviços de saúde da ESF.

Ao questionar os possíveis motivos que fazem com que os homens não procurem a unidade de Estratégia Saúde da Família, obteve-se a confirmação das teorias defendidas pelos teóricos como Korin (14), quando descreve que os homens encontram muitas circunstâncias e fatores que podem afetar sua saúde, e um deles é o não uso dos serviços de saúde por motivos de inconveniência de ter que faltar ao trabalho, potencial perda de rendimentos relacionados a ausências decorrentes de doenças, custo potencial em perdas de promoção e manutenção no emprego. Ainda, segundo Gomes (13), o que dificulta a procura do homem aos serviços de atenção primária em saúde são fatores de ordem social, pois como as atividades laborativas vêm em primeiro lugar na lista de preocupações masculinas, a busca pelos serviços de saúde fica em segundo plano.

O resultado desta pesquisa reforça o exposto na literatura a respeito das questões de acessibilidade masculina aos serviços de saúde, como encontrado na pesquisa: “Por que os homens buscam menos os serviços de saúde do que as mulheres? As explicações de homens com baixa escolaridade e homens com ensino superior.” Quando especifica como resultado: a ausência dos homens ao serviço de saúde seria o medo da descoberta de uma doença grave, assim, não saber pode ser considerado um fator de “proteção” para os homens estudados. Outra dificuldade para o acesso dos homens a esses serviços é a falta de unidades específicas para o tratamento da saúde do homem (10).

Os entrevistados demonstraram coerência com a resposta quando questionados se teriam recebido orientação do agente comunitário de saúde a respeito do funcionamento da ESF onde 82,35% afirmaram não ter recebido nenhum tipo de orientação. Assim, se depreende os resultados obtidos, quanto aos motivos apontados para eventual necessidade de procura pela ESF estar relacionado a motivo de doença, demonstrando que grande parte dos homens (82,35%) não tem conhecimento das ações e serviços oferecidos pela ESF e sua finalidade através de ações de proteção, prevenção e promoção da saúde; somente 4,91% dos homens relataram por motivo de prevenção; enquanto que, para realizar exames, apenas 5,88%. Esse indicador incorpora e reafirma o que os estudos já retratam, que os homens só procuram os serviços de saúde quando já estão numa situação avançada de doença, como sintetiza Korin (14): “Em geral, os homens interatuam com o sistema de saúde de forma episódica e por suas próprias doenças”.

Nesse contexto, a maioria dos homens só procura os serviços de saúde em geral quando apresenta um quadro agudo de alteração da saúde. Neste sentido, enfatiza-se essa falta de caráter preventivo quando o MS aponta para a necessidade de oferecer subsídios à reflexão dos determinantes da saúde do homem, bem como ressalta diversos elementos condicionantes para a sua saúde, destacando a relevância de ações de promoção e de prevenção, além de medidas de recuperação dirigidas à população masculina (1).

Segundo Gomes e Nascimento (15), há uma exigência, socialmente construída, de que o homem seja física e psicologicamente forte, resultando em uma figura que rejeita cuidar de si, adiando ou negando tratamentos preventivos e de promoção e de proteção da saúde. Neste sentido, verifica-se que o processo de adoecimento torna-se de difícil aceitação e, embora se possa até reconhecer a importância da prevenção para a saúde em geral, não há a adoção, na prática, de tais comportamentos, nem tampouco há a busca, para fins preventivos, dos serviços de saúde, o que determina que riscos e doenças, quando existentes, sejam de difícil detecção e tratamento pelos profissionais.

O presente estudo traz um diagnóstico já conhecido da literatura médica a respeito da dificuldade do gênero masculino em compreender as ações preventivas como um processo natural para a manutenção da saúde, pois um percentual reduzido dos homens entrevistados reforçou que procurariam a ESF por motivos de prevenção. No estudo de Gomes (13), discute-se que o homem só procura os serviços de saúde quando já esta num estado avançado de doença, pois o imaginário de “ser homem” pode aprisionar os homens em amarras culturais, dificultando a adoção de práticas de autocuidado, pois à medida que o homem é visto como viril, invulnerável e forte, procurar o serviço de saúde, numa perspectiva preventiva, poderia associá-lo à fraqueza.

Dessa forma, o desafio apresentado nos resultados tabulados é maior do se podia esperar, pois os homens como fruto do meio ainda está tratando sua saúde de acordo com os costumes estabelecidos na sua formação machista, não dando a devida atenção para os cuidados com a prevenção e manutenção de sua saúde.

Parte dos entrevistados, 5,88% dos homens, afirmam que poderiam procurar o serviço de saúde da ESF de Paripiranga/BA, se tivessem melhor acesso, remonta às discussões de Lora (7), ao reforçar, em seus estudos, que boas condições de acessibilidade e, principalmente, o acolhimento, aproximam a população do serviço de saúde, trazem o serviço dos trabalhadores da equipe, para a rede social das pessoas, e, esta aproximação seria uma forma de promoção de saúde.

Conclusão

Os fatores que influenciam na acessibilidade dos homens às atividades de atenção primária à saúde revelam uma realidade preocupante visto que os critérios institucionais, culturais e sociais ainda dificultam o acesso da classe masculina às unidades básicas de saúde.

Como foram vistos, os dados da pesquisa reforçam a idéia de um modelo hegemônico de masculinidade no que diz respeito à procura pelos serviços de saúde. Os homens na faixa etária produtiva pouco procuram os serviços de saúde por desconhecimento da importância ou falta de preocupação com as ações de promoção e prevenção da saúde, medo da doença e fatores institucionais relacionados com a organização de horário de atendimento das unidades de Saúde da Família.

O estudo sinalizou ainda a não existência de infraestrutura organizacional e sistematizada dos serviços básicos para atender às necessidades de saúde do gênero masculino, o que foi caracterizado um sério impeditivo para um cuidado à saúde dos homens.

O presente estudo revelou uma situação problemática, pois as medidas adotadas para a política da saúde do homem, pelo Ministério da Saúde, parecem não ter encontrado sua devida efetivação no município analisado. Assim, faz-se necessário que gestores e profissionais da saúde observem e problematizem a realidade encontrada e encontrem alternativas eficientes para operacionalização da política de saúde do homem.

Nesse contexto, os homens ainda necessitam de orientação quanto à sua real necessidade de procurar as unidades de saúde, a fim de prevenir doenças e promover saúde, já que é a classe masculina que lidera os índices de mortalidade e morbidade no país, para esperar, num futuro próximo, não se obter como respostas dos homens em não procuram a unidade de saúde por medo de descobrir doenças ou, simplesmente, por não conhecer os serviços oferecidos pela ESF. Esse estudo nos revela um indicador ainda não aceitável de que homens não são assistidos por políticas públicas de saúde, assim, a acessibilidade da classe masculina à unidade de atenção básica à saúde ainda não acontece conforme determina a política de atenção integral a saúde do homem.

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