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JULIO 2018 N° 3 Volumen 8

¿Como formar o enfermeiro para a prática baseada em evidências?

Sección: Editorial

Autores

Vilanice Alves de Araújo Püschel

Enfermeira. Profa. Associada do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Diretora do Centro Brasileiro para o Cuidado em Saúde Informado por Evidências: Centro de Excelência do Instituto Joanna Briggs (JBI Brasil). Vocal segunda de Docencia da Asociación Latinoamericana de Escuelas y Facultades de Enfermería (ALADEFE). Membro do grupo coordenador da Red Iberoamericana de Investigación en Educación en Enfermería (RIIEE). Líder da RIIEE Brasil.

A Prática baseada em evidência (PBE) ou Cuidado em Saúde Baseado em Evidência (CSBE) é definido “como a tomada de decisão clínica que considera a viabilidade, adequação, significância e efetividade das práticas de saúde, informadas pelas melhores evidências disponíveis, o contexto no qual os cuidados são prestados, a individualidade do paciente e o julgamento e expertise do profissional de saúde” (1).

A PBE é uma necessidade na atualidade, uma vez que “colocar a informação apropriada nas mãos daqueles que determinam a política de saúde e que prestam cuidados de saúde é fundamental para melhorar a prestação de cuidados e os resultados de saúde” (2).

Embora o termo seja recorrente no discurso de pesquisadores, clínicos, enfermeiros e docentes e amplamente mencionado em eventos científicos, é importante considerar que o conhecimento produzido não é automaticamente aplicado na prática profissional, existindo grandes lacunas entre a prática recomendada e os cuidados prestados rotineiramente.

Aplicar o novo conhecimento, baseado em evidências científicas, exige que o profissional saiba identificar a melhor evidência disponível e que aprenda a lidar com barreiras que dificultam a implementação das melhores práticas em saúde. As barreiras mais comuns estão relacionadas a: falta de conhecimento de profissionais de saúde e de pacientes sobre as melhores práticas; habilidades/capacidade insuficientes para implementar as melhores práticas; preferências dos profissionais de saúde e dos pacientes, bem como dos que definem as políticas; fatores psicossociais e/ou crenças culturais; barreiras organizacionais (por exemplo: falta de incentivos, de infraestrutura) e barreiras de recursos (financeiros e/ou humanos) (3,4,5).

Grimshaw et al. (2012) (6) mencionam que “infelizmente, nossas evidências sobre a provável eficácia de diferentes estratégias para superar barreiras específicas à tradução do conhecimento permanecem incompletas. Os indivíduos envolvidos precisam: identificar barreiras modificáveis e não modificáveis relacionadas ao comportamento; identificar potenciais adotantes e ambientes de prática e priorizar quais barreiras atingir”.

Portanto, se queremos implementar as melhores evidências, de modo a melhorar os resultados de saúde dos pacientes, reduzir custos e melhorar a satisfação dos profissionais pelo aumento da conformidade a critérios de auditoria clínica, precisamos investir na formação dos profissionais de saúde e, em particular, de enfermeiros para a implementação das melhores práticas de cuidado. Deste modo, precisamos envidar esforços para uma formação que possibilite o desenvolvimento de ações e de estratégias bem desenhadas com o intuito de mudar o comportamento dos indivíduos (pacientes e clínicos), de transformar arranjos e cultura organizacionais e monitorar a mudança, aspecto importante para a sustentabilidade da proposta.

Nesse sentido, o Instituto Joanna Briggs (JBI) vem desenvolvendo suas ações a partir de seu Modelo do CSBE, apresentado a seguir.

Para o JBI, os cuidados de saúde baseados em evidências devem ser conduzidos pelas necessidades da saúde global, constituindo-se como seu objetivo final e “força motriz”. No centro do Modelo encontra-se a concepção de que o CSBE precisa considerar a viabilidade, adequação, significado e efetividade das práticas de saúde. A Evidência em saúde é gerada pela pesquisa, pelo discurso ou pela expertise do profissional. A Síntese de Evidência é obtida por meio de revisões sistemáticas da literatura, por sumários de evidências ou por diretrizes. A Transferência de Evidência é feita pela formação/educação dos profissionais de saúde, pesquisadores, clínicos, docentes (7). Para isso, o JBI desenvolveu rigorosa metodologia e ferramentas para a formação por meio do Curso de Revisão Sistemática da Literatura (Comprehensive Systematic Reviews Training Program-CSRT) e do Curso de Implementação de Evidências em Saúde (Evidence-based Clinical Fellowship Program-EBCFP).

A Transferência de Evidências é apenas uma parte do ciclo de Tradução do Conhecimento e é definida como “um processo que ajuda a comunicar ou transmitir os resultados de pesquisas ou evidências, ou traz evidências para a frente. É focado em garantir que as pessoas estejam cientes, tenham acesso e compreendam as evidências” (8).

Síntese e Transferência são métodos para aumentar a acessibilidade e a conscientização da evidência e a capacidade do enfermeiro para usá-la, mas a prática da mudança também requer implementação (9). A implementação de evidências, por sua vez, exige análise do contexto local, facilitação da mudança (facilitação feita por docentes, clínicos ou pesquisadores em CSBE e liderança clínica) e avaliação do processo e dos resultados para medir objetivamente os benefícios para a prática de enfermagem e para os resultados do paciente (10).

Se queremos que a prática do enfermeiro seja baseada em evidências, é preciso que este aprenda a implementar evidências na prática profissional e esse processo precisa ser ensinado. É nessa perspectiva que o Centro Brasileiro para o Cuidado em Saúde Informado por Evidências: Centro de Excelência do Instituto Joanna Briggs (JBI Brasil), além do CSRT, vem oferecendo o EBCFP tendo formado a primeira turma do Clinical Fellowship, em 2017.

O curso de implementação de evidências (EBCFP) é oferecido em três etapas, com duração total de seis meses. A primeira e a terceira etapas ocorrem em uma semana, de forma presencial, com carga horária de 35 horas cada uma. Na primeira etapa, os participantes desenvolvem o projeto de implementação de evidências. Na segunda etapa (residencial), o projeto é implementado em uma instituição de saúde escolhida pelo participante do curso, no período de seis meses. Nessa etapa, os participantes desenvolvem estratégias para lidar com as barreiras que dificultam a implementação das melhores evidências, fazem uma auditoria inicial das práticas existentes tomando como referência os critérios de melhores práticas já sintetizadas pelo JBI, desenvolvem uma intervenção educativa para a equipe de Enfermagem ou de saúde e fazem uma auditoria de seguimento. A última etapa finaliza com a apresentação dos resultados do projeto de implementação das melhores práticas. A experiência que vimos vivenciando tem mostrado que a metodologia de implementação de evidências possibilita a tradução do conhecimento na prática e os Fellows, treinados para a liderança clínica, conseguem mudar a prática nos serviços de saúde nos quais se inserem.

A partir dessa experiência, a Vocalia de Docencia da ALADEFE vem propor a formação para a prática baseada em evidências na América Latina (AL), como um dos objetivos de seu Plano de Trabalho. Para isso, propõe uma parceria de Escolas e Faculdades de Enfermagem sócias da ALADEFE com o JBI Brasil para essa formação usando a metodologia do JBI. Esforços iniciais começaram a ser articulados.

Assim, frente à necessidade de avançarmos na implementação das melhores práticas em Enfermagem na América Latina, essa iniciativa da Vocalía de Docencia, vem contribuir para melhorar a qualidade da formação de enfermeiros para que a PBE seja uma realidade nos serviços de saúde na AL. Esse compromisso é nosso!!!

Bibliografía

  1. Jordan Z, Lockwood C, Aromataris E, Munn Z. The updated JBI model for evidence-based healthcare. Adelaide, South Australia: The Joanna Briggs Institute; 2016.
  2. Pearson A, Jordan Z. Evidence-based healthcare in developing countries. International Journal of Evidence-Based Healthcare. 2010; 8(2):97-100.
  3. National Institute of Clinical Studies. Identifying barriers to evidence uptake. Melbourne, Australia: 2006.
  4. Pearson A, Field J, Jordan Z. Evidence-based clinical practice in nursing and health care. Oxford, England: Blackwell Publishing; 2007.
  5. Melnyk BM. Barriers to Implementing Evidence-Based Practice Remain High for U.S. Nurses J Nurs Adm 2012; 42(9):410-7.
  6. Grimshaw JM, Eccles MP, Lavis JN, Hill SJ, Squires JE. Knowledge translation of research findings. Implement Sci. [internet] 2012 [cited 13 jun 2018]; 7:50. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3462671/pdf/1748-5908-7-50.pdf
  7. Jordan Z, Lockwood C, Aromataris E, Munn Z. The updated JBI model for evidence-based healthcare. The Joanna Briggs Institute. 2016.
  8. Munn Z, Stern C, Porritt K, Lockwood C, Aromataris E, Jordan Z. Evidence transfer: ensuring end users are aware of, have access to, and understand the evidence. International Journal of Evidence-Based Healthcare. 2018; 15:83-9.
  9. Lockwood C, Hopp L. Knowledge translation: What it is and the relevance to evidence‐based healthcare and nursing. International Journal of Nursing Practice. 2016; 22(4):319-21.
  10. Pearson A, Weeks S, Stern C. Translation science and the JBI model of evidence based healthcare. In: Pearson A (ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; 2011.