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ENERO 2019 N° 9 Volumen 9

O significado da amamentação na construção da relação mãe e filho

Sección: Originales

Cómo citar este artículo

Siqueira FPC, Silva IA. O significado da amamentação na construção da relação mãe e filho. Rev. iberoam. Educ. investi. Enferm. 2018; 9(1):17-25.

Autores

1 Fernanda Paula Cerântola Siqueira, 2 Isilia Aparecida Silva

1Enfermeira. Doutora em Ciências pelo Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem-EE/EERP-USP, Docente do Curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Marília -Famema. Brasil.
2 Enfermeira. Livre-Docente. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Brasil.

Contacto:

Email: fercerantola@yahoo.com.br

Resumen

Objetivo: comprender los significados que la mujer atribuye a la lactancia materna en la construcción del vínculo entre la madre y su hijo y cómo influye en la construcción del vínculo entre ellos.
Métodos: se entrevistó a 22 mujeres y se analizaron los datos a la luz del interaccionismo simbólico y de la teoría fundamentada.
Resultados: se destacaron dos temas compuestos por categorías y sus elementos: experimentar la lactancia materna y construcción de la relación con su hijo, que respalda el significado de la lactancia como un fuerte vínculo entre la madre y el niño. Tal vínculo surge de los momentos de intimidad, conocimiento y reconocimiento mutuo, como resultado de la estrecha interacción entre ellos y la experiencia en cada alimentación.
Conclusión: aunque las madres consideran que la lactancia materna es una base importante del vínculo con el niño, su relación no termina en esta práctica; continúa después del destete, con la presencia materna constante y efectiva en la vida del niño.

Palabras clave:

lactancia materna ; relaciones madre-hijo ; apego a objetos

Title:

Breast feeding significance to build a mother-child link

Abstract:

Purpose: to understand the significance women attach to breast feeding to build a mother-child link, and the way breast feeding affects the creation of a link between them.
Methods: twenty-two women were interviewed and data were analyzed based on symbolic interactionism and grounded theory.
Results: two topics consisting in categories and their components were highlighted: Experience of breast feeding and building a link with the infant, which supports the significance of breast feeding as a strong link between mother and child. Such link emerges from intimacy, understanding, and mutual recognition, as a result from a close interaction between them and the experience in each feed intake.
Conclusion: although mothers believe breast feeding to be an important foundation for their link with their infants, this link does not come to an end after breast feeding; the link persists after weaning, with a consistent and effective mother presence in child life.

Keywords:

breast feeding; mother-child relationship; attachment to objects

Portugues

Título:

El significado del amamantamiento en la construcción de relación entre madre e hijo

Resumo:

Objetivo: compreender os significados atribuídos pela mulher à amamentação na construção do vínculo entre mãe e filho e como estes influenciam essa construção.
Métodos: foram entrevistadas 22 mulheres e os dados analisados à luz do Interacionismo simbólico e da teoria fundamentada nos dados.
Resultados: destacam-se dois temas, constituídos por categorias e seus elementos, Vivência da amamentação e Construção da relação com o filho, que sustentam o significado da amamentação como um forte elo entre mãe e filho. Tal elo emerge de momentos de intimidade, conhecimento e reconhecimento mútuo, resultado de uma interação estreita entre ambos, vivenciada a cada mamada. Conclusão: apesar de a amamentação ser considerada pelas mães como uma base significativa do vínculo com o filho, a relação entre eles não se encerra nessa prática: ela continua após o desmame, com a presença materna constante e efetiva na vida do filho.

Palavras-chave:

aleitamento materno; relações mãe-filho; apego ao objeto

Introducción

A amamentação tem sido considerada, no cenário da promoção dessa prática, como uma das mais importantes estratégias de construção do vínculo entre mãe e filho.

Estudos demonstram que o vínculo entre mãe e filho e sua qualidade dependem, entre outros fatores, da vivência da gestação, do parto, da interação inicial entre ambos, das relações familiares, das influências culturais, enfim, da história e das expectativas maternas quanto ao seu novo papel, as quais, por sua vez, também estão condicionadas às condições e à disposição para a mulher amamentar (1-2). O estilo de apego materno adotado, bem como os fatores relacionados ao filho, tais como temperamento irritável, prematuridade e problemas de saúde, podem influenciar a qualidade do vínculo (3). O desenvolvimento de um relacionamento de confiança e apego vai depender da qualidade de resposta materna às necessidades do filho, do afeto, da disponibilidade, da flexibilidade e de sua aceitação em relação à criança (4).

Evidencia-se que o desenvolvimento da relação mãe e filho é complexo, devendo ser analisado como um processo de interação dinâmico. Entre tantos fatores envolvidos na criação da relação mãe-filho, figura a prática da amamentação, há muito apontada como um dos mais significativos. Porém, apesar de o tema aleitamento materno ser muito explorado em várias vertentes, não há evidências qualitativas que subsidiem a compreensão do papel da amamentação na construção desse vínculo.

Isso nos leva a indagar a respeito da percepção que a nutriz tem acerca dessa prática em relação ao filho e que significados emergem daí para fortalecê-la ou não, colaborando para compreender o papel do aleitamento na construção do vínculo entre eles. Essa proposta o que representa uma lacuna a ser explorada atualmente.

Métodos

Trata-se de pesquisa qualitativa e interpretativa de acordo com os princípios do Interacionismo Simbólico (IS) (5), como referencial teórico, e da Teoria Fundamentada nos Dados (6), como referencial metodológico, por considerar que tais fundamentos permitem conhecer o papel da amamentação na construção do vínculo entre mãe e filho, partindo da perspectiva da mulher dentro do seu contexto real de vida.

Em harmonia com os pressupostos do IS, a Teoria Fundamentada nos Dados (6) constitui o método para se estruturar a organização dos dados qualitativos para que a dimensão subjetiva da vida dos indivíduos seja captada e compreendida pelo investigador. Isso é feito pela construção de categorias inter-relacionadas, demonstrativas da vivência do indivíduo para aquilo que é objeto do estudo.

Cenário do estudo e participantes da pesquisa: o estudo foi realizado com 22 mulheres que deram à luz seus filhos em uma maternidade do município de Marília-SP e que atenderam aos critérios do estudo, a saber: ter tido gestação e parto sem intercorrências clínicas ou obstétricas; o último ou único filho ter de 10 a 24 meses de idade, nascido a termo e ter amamentado, pelo menos, um dos filhos por qualquer período de tempo.

A partir da ficha de atendimento de mulheres que deram à luz nos últimos 24 meses, foram identificadas as dez primeiras convidadas pela pesquisadora para participação na pesquisa por meio de telefone. As demais mulheres foram sendo convidadas conforme o andamento da pesquisa até o alcance da saturação dos dados (6), o que definiu o número de participantes. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Faculdade de Medicina de Marília-Famema, sob o protocolo nº 444/10, com assinatura dos termos recomendados pela legislação vigente previstos na resolução 466/2012.

Coleta dos dados: as entrevistas foram agendadas previamente por telefone e feitas em domicílio, conforme a opção de datas e horários das mulheres. Nessa ocasião, as mulheres foram informadas acerca de seu direito de aceitar participar ou não da pesquisa, ou interromper sua participação, se o desejasse, sendo solicitada a elas a permissão de gravação da entrevista na íntegra. A coleta dos dados foi iniciada após os esclarecimentos e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram coletados dados de caracterização biológica e social das mulheres e, na sequência, feita a entrevista, iniciada com a proposta norteadora: “Conte-me sobre a experiência de amamentar seu/s filho/s”. A partir de sua fala, outras questões foram encadeadas, buscando abordar a percepção materna sobre amamentar e sua relação com o filho. De acordo com os resultados da análise dos dados, foram sendo compostos grupos amostrais com introdução de outras perguntas para as participantes subsequentes e que pudessem melhor aprofundar o assunto e esclarecer os conceitos já obtidos, conforme é previsto no referencial metodológico adotado. As mulheres entrevistadas foram identificadas pela letra E seguida de números, de acordo com a ordem de participação: E1, E2, etc.

Análise dos dados: os dados foram organizados e analisados conforme orientação da Teoria Fundamentada nos Dados (6), à luz dos pressupostos do IS (5). Por meio de processo de codificação de elementos surgidos das entrevistas, foi realizada a análise constante e comparativa desses dados, a composição de categorias, a redução dessas categorias e por meio da codificação axial, a integração entre as categorias na busca dos fenômenos emergentes. Nesse processo são delineadas as percepções, as definições de situações e os elementos constituintes da construção dos significados acerca do fenômeno estudado, à luz do IS. A coleta e análise concomitante dos dados foram realizadas em 2012.

Resultados

A idade das 22 mulheres participantes desta pesquisa variou entre 17 e 43 anos. A maioria, ou seja, 19 delas, tinha relação marital estável. Quanto à escolaridade, predominaram mulheres com nível universitário, sendo dez com nível universitário completo e uma com nível incompleto, quatro com ensino médio completo, três com ensino médio incompleto, duas com ensino fundamental completo e apenas duas tinham ensino fundamental incompleto. O número de filhos vivos variou entre um e sete.

Do processo de análise dos depoimentos das mulheres, destacaram-se dois Temas que, em seu conjunto, explicitam a maneira como essas mulheres percebem a amamentação na construção do vínculo materno filial, fato representado nas Cuadros 1 e 2.

O Tema II, CONSTRUÇÃO DA RELAÇÃO COM O FILHO, é constituído pela reflexão materna acerca do significado da amamentação na evolução do papel de mãe e do vínculo, em que aflora elementos representativos da ligação entre mãe e filho, conforme a Cuadro 2.

Discussão

Desde a gestação e o nascimento, a mãe se depara com a responsabilidade pelos cuidados da criança e reconhece que ela é o agente principal dessa atenção, especialmente por poder oferecer o cuidado primordial por meio da amamentação. A mulher retrata um conjunto de elementos significativos, representado pelo processo de amamentar como um cenário de vivências de ordem prática no cotidiano e no qual sobressaem elementos significativos de ordem subjetiva. Tais elementos podem ser compreendidos pela superação de dificuldades de ordem física, da superação da fadiga pela necessidade de atender às demandas da criança. Isso se dá pelo sentimento que reforça o aleitamento como percepção de bem-estar e relaxamento.

O processo de amamentar sugere um contexto de muita paciência e tempo a ser dedicado às mamadas e de superação de desconfortos e cansaços físicos. A mulher, entretanto, também percebe os momentos de mamada como um hiato em sua rotina, capaz de ter o efeito de calma e relaxamento sobre si e, assim, atribuiu à amamentação um significado de prazer. Essa condição se manifesta como significativa na construção desse processo, por exigir dela a condição física e emocional de conciliar o aleitamento com outras atividades e a superação de obstáculos ou intercorrências. Essa dicotomia entre atender às demandas da criança e suprimir suas necessidades também foi discutida no estudo desenvolvido com mulheres do Município de São Paulo, mostrando que o cansaço pode interferir em sua qualidade de vida e na percepção acerca da prática de amamentar (7).

O estresse emocional vivenciado, além de comprometer o bem-estar materno configura-se em concepções negativas do papel materno, identificado quando expressam que "ser mãe não é tão lindo". Tais aspectos podem levá-las a vivenciar conflito e sentimento de culpa, e a necessidade de sono e repouso pode fazer com que elas vivenciem a amamentação como fator que sobrecarrega seu cotidiano (8).

As mulheres vivenciam inúmeras experiências que se traduzem em elementos usados para a superação de dificuldades de toda ordem no cuidado do filho. Ao dedicar-se exclusivamente à criança, a mãe toma para si a responsabilidade pela alimentação e nutrição do filho. Tornando a amamentação um cuidado essencial para a promoção da saúde dele, a mãe coloca-se integralmente à disposição do lactente, organizando e adequando suas atividades à amamentação, resultados também encontrados no estudo de Aragaki e Silva (9).

Os momentos de mamada são aproveitados pelas mães para observar e guiar sua interação com o filho. Esta condição de observar e manter o foco na criança retrata a sensibilidade materna de interagir com o filho, identificando gestos aos quais atribui significados simbólicos, interpretados por ela como sinais de aceitação da criança e de retribuição de carinho. Os movimentos de busca pelo peito, o toque da criança na mama e a interação pelo contato visual são elementos simbólicos que representam aceitação e satisfação de necessidade, bem como expressão de carinho, felicidade e agradecimento da criança pela amamentação. O comportamento da criança é percebido, traduzido e interpretado positivamente pela mãe. Os menores gestos e a troca de olhar entre ambos são traduzidos como manifestações de satisfação da criança. A mãe percebe a interação entre ambos e atribui esse entrosamento à construção do vínculo entre eles.

A percepção de uma mulher sobre seu bebê é aumentada pela proximidade durante a amamentação (2). O contato físico, os comportamentos carinhosos, a fala ativa e a interação que ocorrem durante a amamentação fortalecem o vínculo emocional entre ambos (10,11).

Esse cenário propicia a retroalimentação da confiança materna. Ela percebe sua eficiência na produção de leite e atende às necessidades gerais do filho, mas, especialmente, vivencia a interação em que percebe ser o foco das atenções da criança. A amamentação provoca o sentimento de necessidade de manter o filho o mais próximo possível de si; significa o estabelecimento de uma interação única que se compõe da sensação de ter para si a atenção exclusiva da criança e de atender à dependência do filho, estabelecendo um entrosamento que se consolida no decorrer do processo. A mãe sente-se importante pelo poder que só ela tem, o de amamentar o filho.

Nossos resultados são reiterados pela pesquisa de Papp (12), segundo a qual a amamentação contribui para o desenvolvimento da sensibilidade materna. Identificou-se que as mulheres que amamentam demonstram comportamento mais interativo e disponível para o bebê, como olhar fixamente, tocar e dar respostas mais carinhosas (13) e, por meio dessas interações a cada mamada, demonstram atração pelo filho, fortalecendo a ligação entre eles (14).

Durante a lactação, a ação da ocitocina facilita o apego materno, o toque, o desejo da proximidade física, os repetidos contatos olho-a-olho, pois, enquanto o bebê mama, ocorre a liberação simultânea desse hormônio na mãe e no filho. Além de proporcionar o prazer de saciedade da fome com o leite, isso reforça o sentimento de amor entre ambos (15).

O processo é recíproco: o desenvolvimento infantil estimula a mãe que, por sua vez, alimenta o bebê. A qualidade da energia e a sua geração, entretanto, variam, dependendo do "ajuste" entre o lactente e a mãe. Experiências que funcionam para promover a sobrevivência da criança são experimentadas como positivas. O toque amoroso, a voz suave, satisfação, a fralda seca, a canção de ninar e a resposta comportamental calma da criança refletem a aceitação.

Experiências que colocam em risco a sobrevivência devem (e vão) ser experimentadas como negativas: a fome, uma espera prolongada para a mãe aparecer quando ela é necessária, a ausência de afeto materno, manuseio intrusivo e a super estimulação provocam angústia à criança. Ela é projetada para encontrar, no rosto humano, voz e toque interessantes e prazerosos, mas irá parar de responder a eles de forma positiva, se a mãe não adequar suas ministrações à sua capacidade para recebê-los. A resposta da criança, por sua vez, gera reações emocionais na mãe que moldam sua maternidade em curso (16).

Os resultados deste estudo não só reiteram os conceitos discutidos acima, mas mostram que a mulher, ao reconhecer a amamentação como elo forte, vê no aleitamento um dos principais significados sustentadores da construção de laços afetivos entre ela e o filho, os quais outros membros da família não podem experimentar com a mesma intensidade.

Para atender à demanda crescente provocada pela interação continuada, a mulher busca, em si e no seu entorno, tecer uma estrutura compatível com a responsabilidade de cuidar da criança, no movimento de assumir a nova condição de vida, a de ser mãe. Isso a faz encarar o processo da maternidade de uma forma mais intensa e mais gratificante, o que pode não ser vivenciado, pelo menos no princípio, pela mulher que sente faltar-lhe maturidade e pontos de apoio em seu contexto para, efetivamente, tornar-se mãe. A mulher percebe-se em um movimento cotidiano de superação de dificuldades pessoais e materiais para cuidar do filho e, representada por uma doação real e simbólica, fortalece dia-a-dia seu vínculo com a criança.

Nesse processo, a mulher reconhece transformações em si, como amadurecimento pessoal, o que contribui na construção de ser e dar o sentido ao “ser” mãe. Amamentar é forma de qualificação nesse papel, socialmente reconhecido como dever moral da mulher para com a nação e como elemento de responsabilização total da mãe pela saúde dos filhos (17).

A amamentação, no entanto, só contribui para uma efetiva construção do vínculo, se a mãe não praticar o aleitamento por mera obrigação (18). Para que a experiência de amamentação possa ser satisfatória, tanto para a mãe quanto para o filho, deve haver ambiente propício, desejo real de amamentar e disponibilidade interna para isso. Caso contrário, pode estabelecer-se um espaço de conflitos e ansiedades, tornando a prática de amamentar tão plástica quanto a mamadeira (19).
Mulheres que relatam maior apego materno fetal durante a gravidez apresentam estilos de apego mais seguros (20), são mais propensas a amamentar por mais tempo e continuar a amamentação mesmo quando vivenciam dificuldades iniciais. A partir daí, é importante olhar para o contexto das mulheres para compreender o processo de amamentação e obter mais evidências das representações de apego que possam influenciar suas decisões (1).

Acredita-se que, quando ocorre a sincronia materno-infantil, envolvendo sensibilidade materna, interpretação bem sucedida e capacidade de resposta adequada e em tempo, a mulher sente-se mais confiante em seu papel como mãe, sendo isso também benéfico no desenvolvimento de futuros relacionamentos sociais da criança (4).

Nesse cenário, a amamentação é percebida pela mãe como um forte elemento interacional entre ela e o filho, resultante da sua interpretação simbólica e significativa mais do que pode significar biologicamente. É uma experiência de proximidade, de intimidade entre dois seres que, na visão materna, tem o papel de fortalecer a relação de forma contínua e crescente. A amamentação, na visão dessas mulheres, tem o significado singular de fortalecimento do vínculo mútuo, o que pode ser percebido desde as primeiras experiências de amamentar.

Estudos, como os desenvolvidos por Bystrova et al. (21) e Jhonson (2), demonstraram que o contato físico entre a mãe e a criança é benéfico para uma interação a longo prazo e afeta a construção do vínculo entre eles. Por esta razão, os procedimentos adotados atualmente para propiciar o contato pele a pele entre mãe e filho por meio da amamentação, ainda em sala de parto, são de suma importância. O contato pele a pele, facilita a transição para a vida extra-uterina e a amamentação (22,23).

O desenvolvimento da criança e sua crescente autonomia e independência fazem com que as mulheres percebam que a fase do vínculo estreito e exclusivo do filho com elas tem seu ápice no período da amamentação.

O desmame, oportuno ou precoce por motivos diversos, provoca a necessidade de a mãe criar outras estratégias de proximidade com o filho para dar continuidade ao processo de criação de vínculo e apego entre os dois. O comportamento da criança passa da dependência materna para manifestações interpretadas como sendo de autoconfiança e liberdade, sendo interpretado como movimento de desapego da exclusividade dos cuidados maternos, mas não de rompimento de vínculo. Portanto, percebe-se uma evolução na forma de interação entre mãe e filho, em que novos elementos significativos são percebidos pela mãe não como intrusão, mas são reconhecidos como parte do universo interacional da criança.

Nesse cenário, a amamentação, considerada o elo forte entre ambos, cumpre seu papel até certo ponto da vida da criança e da relação entre eles. A mãe cria outras formas de interação que sobrevêm ao desmame, acreditando que estar presente na vida da criança é sua forma de manter o vínculo com o filho.

Essa construção de vínculo passa de uma relação binômia, representada pelo apego estreito da criança com a mãe, para uma relação expandida em que as interações significativas se dão em outro nível de relação e envolvem todas as possibilidades de participação da mãe e de outras pessoas significativas nas atividades e cotidiano da criança. A mãe reconhece que a marca de sua presença na vida do filho é a maneira de afirmar sua interação. Isso representa um processo de avaliação e reformulação do lugar que a mulher ocupa na vida do filho, por sua qualificação e diversificação de interação com a criança e com a família.

Há inúmeras estratégias para manter a ligação perene entre eles, como a troca de carinho, de proximidade, a participação na maioria das atividades da criança, demonstrando e dando-lhe atenção. A base da relação está no conhecimento mútuo e na confiança que um adquire no outro, aquilo em que a mãe acredita que poderá influenciar a vida da criança no futuro, como adulto mais seguro de si. A sensibilidade materna descortinada neste estudo corrobora a conclusão de Jhonson (2), segundo o qual a presença da mãe provê senso de segurança à criança, justificando a importância de mantê-las juntas pelo maior tempo possível.

De acordo com as pesquisas de Junges et al. (18) e Carrascoza et al. (19), amamentação é um processo relacional entre duas pessoas, constituído pela interação dinâmica e participativa da mulher e de seu filho (24). Significa mais do que a mera passagem de leite de um organismo para outro, é um processo físico e comportamental que constrói vínculos, despertando na mulher sentimentos de ligação íntima com o filho, mantidos mesmo após o desmame.

O vínculo, então, é também entendido como uma estrutura dinâmica estabelecida pelas pessoas envolvidas. Nas premissas do Interacionismo Simbólico (5), corroborado pelos elementos que envolvem a formação do vínculo materno-infantil (2), os resultados deste estudo permitem afirmar que o vínculo entre mãe e filho é fruto de um processo dinâmico e interacional, centrado nas relações interpessoais e que, por meio de tais relações, não é determinado somente por um elemento ou por uma qualidade intrínseca ao objeto ou ao elemento interacional de per si, como seria a amamentação: vai além dela. Para essas mulheres, a amamentação representa a base para a interação que se estende ao longo da vida de ambos, da mãe e do filho.

Conclusão

Confirma-se, neste estudo, a base interacional do processo de amamentação. As nutrizes atribuem a essa prática um significado substantivo na construção de vínculo entre ela e o filho, sendo o elo forte que forma a cadeia de elementos construtores dessa relação.

O processo de amamentar propicia intimidade e proximidade entre mãe e filho e, junto com outros cuidados prestados à criança, desperta o reconhecimento da mulher no papel materno e evolui, com a criança, na formação desse vínculo. A disponibilidade materna para amamentar e cuidar do bem-estar do filho, a dedicação e a superação de dificuldades e de demandas por apoio de ordem material e pessoal são elementos importantes para que ela consiga vivenciar a maternagem de maneira plena. Da mesma forma, o desenvolvimento da sensibilidade para identificar elementos simbólicos que a fazem conhecer e compreender a criança é significativo na construção do vínculo e do seu papel enquanto mãe.

Os resultados deste estudo evidenciam o papel significativo da amamentação na relação entre mãe e filho, mas não se encerra na experiência em si - representa base sólida para o desenvolvimento do apego que se projeta para a experiência de ambos a longo prazo.

Esses elementos tornam o processo de amamentação uma estratégia de fato importante para o desenvolvimento da relação legítima e perene entre esses atores. Trata-se de um campo de atuação profícuo para a Enfermagem e demais áreas da saúde, contribuindo para oportunizar às mães e aos filhos essa experiência e proporcionar meios para que a amamentação seja uma atividade prazerosa, não sendo o foco único no processo de construção dos laços entre ambos. Os profissionais devem se dispor a uma escuta ampliada para captar, além dos dados objetivos, a subjetividade que está no cerne na trama da relação mãe e filho para que, de fato, possam ajudar a promover o vínculo entre eles.

Limitação do estudo

O estudo foi realizado com mães que amamentaram seus filhos, indicando a necessidade de desenvolver outros estudos dessa temática com mães que não amamentaram. Essa uma limitação sua sugere aprofundamentos em outros contextos.

Conflito de interesses

Não houve conflito de interesse na produção deste artigo.

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