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JULIO 2019 N° 3 Volumen 9

DIFICULDADES NA INTERAÇÃO: ESTRATÉGIAS UTILIZADAS PELOS ESTUDANTES DE ENFERMAGEM EM ENSINO CLINICO

Sección: Originales

Cómo citar este artículo

Melo RC, Oliveira PI, Bogalho CI, Santos-Costa PJ, Henriques LV, Dificuldades na interação: estratégias utilizadas pelos estudantes de enfermagem em ensino clinico. Rev. iberoam. Educ. investi. Enferm. 2019; 9(3):30-8.

Autores

1 Rosa Cândida Carvalho Pereira de Melo, 2 Patrícia Isabel da Silva Faria Oliveira, 3 Catarina Isabel de Deus Bogalho, 4 Paulo Jorge dos Santos Costa, 5 Liliana Vanessa Lúcio Henriques

1 Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal.
2 Unidade de Cuidados Continuados no Hospital Agostinho Ribeiro, Felgueiras-Porto.
3 Domus Vitae - Fundação Beatriz Santos.
4 Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal.
5 Unidade de Cuidados Continuados da Santa Casa de Pedrógão Grande.

Contacto:

Email: rosamelo@esenfc.pt

Resumen

Objetivo: en el contacto con la realidad práctica del cuidado, los estudiantes de enfermería demuestran dificultad en la interacción con las personas cuidadas, especialmente las que presentan alteraciones cognitivas.
Identificar las estrategias utilizadas por los estudiantes en la Enseñanza Clínica para reducir las dificultades sentidas en la interacción con la persona cuidada.
Metodología: estudio descriptivo con abordaje cuantitativo y cualitativo, cuya población son estudiantes del curso de Licenciatura en Enfermería, en contexto de Enseñanza Clínica. Muestra intencional no probabilística de los estudiantes que estaban realizando la primera enseñanza clínica en servicios de medicina y neurología. Datos obtenidos a través de un cuestionario semiestructurado, respetando las consideraciones éticas y legales. Los datos cuantitativos se analizaron en IBM SPSS Statistics 23.0 y cualitativos utilizando la técnica de Bardin.
Resultados: incluidos 90 estudiantes, predominantemente del género femenino (81,1%), con edad comprendida entre los 19 y los 31 años. Emergieron como principales estrategias la formación y entrenamiento de técnicas relacionales y empleo de la Metodología de Cuidado Humanitud.
Conclusiones: el enfoque tendencialmente teórico en la formación de los estudiantes, sin formación en técnicas y metodologías específicas antes del contacto con la realidad clínica, condiciona su desarrollo de competencias relacionales. Es esencial capacitar a los estudiantes con metodologías de cuidar que faciliten la interacción con la persona cuidada.

Palabras clave:

estrategias ; educación en enfermería ; relaciones interpersonales ; humanización de la atención ; estudiantes de enfermería

Title:

Interacting difficulties: strategies used by nursing students in clinical learning

Abstract:

Objetivo: en el contacto con la realidad práctica del cuidado, los estudiantes de enfermería demuestran dificultad en la interacción con las personas cuidadas, especialmente las que presentan alteraciones cognitivas.
Identificar las estrategias utilizadas por los estudiantes en la Enseñanza Clínica para reducir las dificultades sentidas en la interacción con la persona cuidada.
Metodología: estudio descriptivo con abordaje cuantitativo y cualitativo, cuya población son estudiantes del curso de Licenciatura en Enfermería, en contexto de Enseñanza Clínica. Muestra intencional no probabilística de los estudiantes que estaban realizando la primera enseñanza clínica en servicios de medicina y neurología. Datos obtenidos a través de un cuestionario semiestructurado, respetando las consideraciones éticas y legales. Los datos cuantitativos se analizaron en IBM SPSS Statistics 23.0 y cualitativos utilizando la técnica de Bardin.
Resultados: incluidos 90 estudiantes, predominantemente del género femenino (81,1%), con edad comprendida entre los 19 y los 31 años. Emergieron como principales estrategias la formación y entrenamiento de técnicas relacionales y empleo de la Metodología de Cuidado Humanitud.
Conclusiones: el enfoque tendencialmente teórico en la formación de los estudiantes, sin formación en técnicas y metodologías específicas antes del contacto con la realidad clínica, condiciona su desarrollo de competencias relacionales. Es esencial capacitar a los estudiantes con metodologías de cuidar que faciliten la interacción con la persona cuidada.

Keywords:

strategies; education in nursing; interpersonal relationships; Humanization of care; nursing students

Portugues

Título:

Dificultades en la interacción: estrategias utilizadas por los estudiantes de enfermería en enseñanza clínica

Resumo:

Objetivo: no contato com a realidade prática dos cuidados, os estudantes de enfermagem demonstram dificuldade na interação com as pessoas cuidadas, nomeadamente as que apresentam alterações cognitivas.
Assim, de modo a explorar este fenómeno, pretende-se as estratégias utilizadas pelos estudantes no Ensino Clínico para reduzir as dificuldades sentidas na interação com a pessoa cuidada.
Método: estudo descritivo com abordagem quantitativa e qualitativa, cuja população-alvo são estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem, em contexto de Ensino Clinico. Amostra intencional não probabilística, dos estudantes que estavam a realizar o primeiro Ensino Clinico em serviços de medicina e neurologia. Dados colhidos através de um questionário semiestruturado, respeitando as considerações ético e legais. Dados quantitativos foram analisados no IBM SPSS Statistics 23.0 e qualitativos utilizando a técnica de Bardin.
Resultados: incluídos 90 estudantes, predominantemente do sexo feminino (81,1%), com idade compreendida entre os 19 e os 31 anos. Emergiram como principais estratégias a formação e treino de técnicas relacionais e utilização da Metodologia de Cuidado Humanitude.
Conclusões: o foco tendencialmente teórico na formação dos estudantes, sem formação em técnicas e metodologias específicas antes do contacto com a realidade clínica condiciona o seu desenvolvimento de competências relacionais. Torna-se essencial capacitar os estudantes com metodologias de cuidar que facilitem a interação com a pessoa cuidada.

Palavras-chave:

estratégias; Ensino de enfermagem; relações interpessoais; humanização da assitência; estudantes de enfermagem

Introdução

O Curso de Licenciatura em Enfermagem compreende uma vertente teórica, teórico-prática e prática. Conforme descrito no Regulamento Geral da Licenciatura de Enfermagem (1), a carga horária total do curso representa metade do horário para as duas vertentes de natureza teórica/teórico-prática e prática. A vertente prática, denominada de Ensino Clínico (EC), pode ter contextos em diversas instituições de saúde hospitalares e da comunidade. A nível europeu, o EC é definido pela Diretiva 2005/36/CE, de 30 de setembro de 2005, artigo 31, ponto 5, como a “vertente da formação em enfermagem através da qual o candidato a enfermeiro aprende, no seio de uma equipa e em contacto direto com um indivíduo em bom estado de saúde ou paciente e/ou uma coletividade, a planejar, dispensar e avaliar os cuidados de enfermagem globais requeridos, com base nos conhecimentos e competências adquiridas” (2).
Segundo a mesma diretiva, o EC é oficialmente definido, no âmbito de enfermagem, como a vertente da formação através da qual o estudante aprende a planear, executar e avaliar os cuidados de enfermagem globais requeridos com base nos conhecimentos e competências adquiridas, constituindo assim, um período de aprendizagem por excelência (1). É um período de aprendizagem de excelência porque os estudantes são confrontados com a realidade prática dos cuidados, através do contacto com doentes dependentes, muitas vezes em sofrimento físico e psicológico, necessitando de mobilizar os conhecimentos apreendidos em contexto teórico/teórico-prático para a realidade prática.
Este contacto com a prática dos cuidados e a capacitação de técnicas relacionais e instrumentais, leva os estudantes a adquirirem uma maior segurança, destreza, desenvolvimento de atitudes profissionais e conscientização do papel do enfermeiro (1). Neste contexto, o EC figura-se como um momento fundamental e diferenciado na formação do estudante de enfermagem.
A enfermagem é entendida como uma ciência humana e, por conseguinte, centrada na interação com a pessoa cuidada, família e comunidade (3), mas, os estudantes no início do EC sentem dificuldade na interação com as pessoas cuidadas (4), criando sentimentos de angústia, receios e ansiedade (5). Assim, é crucial implementar estratégias, na prática pedagógica, no sentido da aquisição de segurança e autonomia para o exercício profissional (6), valorizando o conceito de cuidar, tendo como primazia os cuidados humanizados, dado que estes desempenham um papel fundamental na resposta às necessidades individuais de cada pessoa cuidada (6,7,9).
No entanto, os estudantes de enfermagem evidenciam maior desenvolvimento nas competências genéricas e piores resultados nas competências de contato, ligadas ao toque e à proxémia; nas competências de comunicação, que incluem a escuta, o silêncio, a reformulação e a síntese, e nas competências empáticas (10). Verifica-se que os estudantes de enfermagem, restringem a sua preocupação aos saberes técnicos da profissão, não dando intencionalidade à relação, impossibilitando-os de evidenciar estes saberes científicos e associar os mesmos à prática profissional (5). Por este motivo, no início do contato com a realidade prática dos cuidados, os estudantes de enfermagem demonstram deficit de competências relacionais, e dificuldades na interação com a pessoa com alterações do comportamento e em situações complexas (3,5,10). As principais dificuldades dos estudantes centram-se na interação/comunicação com pessoas agitadas, confusas e que recusam os cuidados (3), levando a sentimentos de insegurança, medo e impotência, devido à falta de preparação na área relacional e em técnicas relacionais, assim como a discrepância entre o conhecimento adquirido na teoria e a realidade prática muito centrada na execução de tarefas, relegando-se a comunicação para segundo plano (3,11).
O cuidar do outro envolve sentimentos, que nem sempre são considerados pelos docentes, implicando ter em consideração a dimensão emocional no processo de ensino-aprendizagem, sendo necessário refletir sobre estratégias que reduzam as suas dificuldades e os desconfortos vivenciados no ensino clínico, facilitando a sua aprendizagem (2,3,5). Neste sentido, a orientação para uma prática reflexiva, visando um agir com competência, pressupõe a interação, a clarificação de metas e discussão dos objetivos de aprendizagem com a presença do docente, través da estimulação do raciocínio e habilidades para a resolução de problemas, permitindo o desenvolvimento do pensamento crítico (11-13).
Também a utilização das estratégias de coping alivia os níveis de stress e, por conseguinte, promove a qualidade de vida aos estudantes de enfermagem (14). No entanto, alguns estudos evidenciam que os estudantes de enfermagem utilizam estratégias focadas na fuga da realidade, com comportamentos de evitamento, pouco resolutivas e de baixa eficácia na gestão de um evento de stress (14,15). Neste sentido, devem-se desenvolver métodos ativos para ajudar os estudantes de enfermagem a gerirem o stress e as situações difíceis (14,15).
A prática simulada, através da vivencia mais próxima do real, pode ser uma estratégia utilizada para a apropriação das competências relacionais, diminuindo a ansiedade e o desenvolvimento de confiança e segurança nos cuidados (14), no entanto, o uso despersonalizado da simulação, muito centrada nos procedimentos instrumentais, não dando intencionalidade à dimensão da relação, pode ser um fator dificultador da interação com a pessoa cuidada (4).
Assim, será importante utilizar metodologias de cuidar que operacionalizem e sistematizem a relação, como a Metodologia de Cuidado Humanitude (MCH), desenvolvida por Yves Gineste e Rosetti Marescotti (16,17). Esta metodologia, com base nos pilares relacionais, olhar, palavra e toque e no pilar identitário a verticalidade, e por técnicas relacionais caraterizadas pela suavidade, segue uma sequência estruturada de procedimentos cuidativos humanitude (SEPCH), que permite criar uma relação positiva com a pessoa cuidada, tornando o cuidado num momento de bem-estar (9,16-18).
A SEPCH desenvolve-se em cinco etapas dinâmicas e sucessivas: a primeira, os “pré-preliminares”, que têm o objetivo de preparar o ambiente e a pessoa que vai ser cuidada para a abordagem inicial, evitando cuidados em surpresa, permitindo respeitar a sua privacidade, liberdade e a autonomia (9,16-18); a segunda, os “preliminares do cuidado”, leva ao estabelecimento de uma relação positiva com a pessoa promovendo a aceitação do cuidado, através da utilização dos pilares relacionais: olhar, palavra e toque (9,16-18). Após o consentimento relacional, negocia-se o cuidado, iniciando a terceira etapa, a “rebouclage sensorial”, ou realização do cuidado, que se traduz na coerência entre as entradas sensoriais (visão, audição, tato e olfato), levando a uma sensação corporal de bem-estar provocando relaxamento muscular e facilitando a prestação dos cuidados (16-18). A quarta etapa, a “consolidação emocional” ou seja o fecho do cuidado, permite deixar na memória emocional uma sensação positiva, através dos reforços positivos dos progressos alcançados e do agradecimento pelos bons momentos que passaram juntos (16-18); a quinta etapa, a “marcação do reencontro”, consiste na programação do próximo encontro, permitindo evitar o sentimento de abandono e desprezo.
A implementação desta tecnologia de cuidado tem demonstrado particular efetividade na prestação de cuidados nas pessoas com alterações cognitivas, prevenindo comportamentos de agitação e recusa dos cuidados (9,16-18).
Essa metodologia de cuidado tem demonstrado evidências científicas, permitindo a apropriação de procedimentos técnico relacionais estruturados e sistematizados, facilitando a operacionalização da relação com a pessoa cuidada, em qualquer contexto e ao longo de todo o ciclo vital (9,16-18), no entanto as pesquisas na área do ensino ainda são escassas, havendo necessidade de uma maior implementação e avaliação dos resultados na aprendizagem dos estudantes de enfermagem preparando-os para o desafio que é cuidar de pessoas com alterações do comportamento.
Nesse sentido, o objetivo deste estudo prende-se com a identificação das estratégias utilizadas para reduzir as dificuldades sentidas pelos estudantes de enfermagem no EC.

Metodologia

Estudo descritivo com abordagem qualitativa. A amostra de conveniência, foi constituída por 90 estudantes do 2º do Curso de Licenciatura em Enfermagem, de uma escola superior de enfermagem da região centro de Portugal, que estavam a realizar o EC de fundamentos de enfermagem, na comunidade e em contexto hospitalar. Enquanto critérios de exclusão, não foram considerados estudantes a frequentar o terceiro e quarto ano do Curso de Licenciatura em Enfermagem, assim como todos os estudantes que após esclarecimento devidamente informado decidiram não participar no estudo. A vertente comunitária do EC foi desenvolvida em parceria com associações, equipes e/ou instituições de terceira idade inseridas na região centro do país. A vertente hospitalar foi realizada em serviços de medicina interna e de neurologia de um centro hospitalar da região centro de Portugal.
A coleta de dados foi realizada através da aplicação de um questionário semiestruturado, composto por questões de caracterização da amostra, uma questão fechada ("Quais são as principais dificuldades sentidas no início do EC?") e uma questão aberta ("Quais foram as estratégias utilizadas para superar as dificuldades?"). Os questionários foram preenchidos pelos estudantes na terceira semana do EC, sendo este composto por dez semanas. Os dados foram colhidos pela investigadora responsável do estudo, num local privado e isento de interrupções nas referidas instituições/unidades de saúde comunitárias e hospitalares.
Os dados qualitativos foram alvo de análise de conteúdo segundo a metodologia de Bardin (19), utilizando-se a análise de conteúdo de natureza temática, seguindo os princípios de homogeneidade, exaustividade, exclusividade, objetividade, e pertinência para a formulação de categorias (19). O processo de análise de conteúdo iniciou-se com uma análise do material obtido à questão quais foram as estratégias utilizadas para superar as dificuldades. Os dados foram organizados em categorias e subcategorias, apresentados nos resultados. Foi realizada a codificação através de atribuição de códigos específicos a unidades de registo com um determinado teor semântico previamente especificado pelo pesquisador. Houve saturação dos conteúdos das falas em cada categoria. A validade e fidedignidade da análise de conteúdo foi assegurada, por dois codificadores, peritos em pequisa qualitativa que validaram os achados. Aos participantes foi também dada a oportunidade de darem o seu feedback sobre os achados e os resultados foram apresentados e discutidos posteriormente com os estudantes. As categorias de significado que emergiram deste estudo foram: Formação/ensino; Aplicação da Metodologia de Cuidado Humanitude e o Desenvolvimento de competências pessoais.
No decurso deste estudo foram respeitadas as considerações ético-legais. Salienta-se o caráter voluntário da participação dos estudantes, tendo sido assinada uma declaração de consentimento informado. Esta investigação obteve o parecer favorável (parecer nº 30209/2015) da Comissão de Ética da Unidade Investigação em Ciências da Saúde: Enfermagem (UICISA: E) da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra.

Resultados

Participaram neste estudo 90 estudantes, sendo 73 do sexo feminino (81,1%) e 17 do sexo masculino (18,9%). A idade dos estudantes inquiridos variou entre um mínimo de 19 anos até um máximo de 31 anos, sendo a idade média 20,3 anos.
Foram identificadas pelos estudantes como principais dificuldades na interação com a pessoa cuidada: a comunicação com pessoas pouco comunicativas (74,4%); comunicação com pessoas agitadas/confusas/agressivas (58,9%); comunicação com pessoas que não comunicam verbalmente (54,4%); incongruência entre a teoria e a prática (40%); prestar cuidados a pessoas que recusam os cuidados (30%).
Quando questionados sobre as estratégias que utilizaram para superar as dificuldades acima descritas, conforme Tabela 1, emergiram tres categorias: Formação/ensino; Aplicação da Metodologia de Cuidado Humanitude e o Desenvolvimento de competências pessoais.
A maioria dos estudantes enfatizou a formação/ensino como estratégia para superar as dificuldades sentidas, evidenciando a necessidade do treino de técnicas relacionais, como ferramenta principal no desenvolvimento de competências relativas à interação com a pessoa cuidada, como evidenciado por estes estudantes “melhorar e treinar a comunicação verbal e não verbal” (E20, 39), “repetir várias vezes determinado procedimento” (E31), “desenvolver a observação e estratégias comunicativas” (E8). Os estudantes também enfatizaram a contribuição do contexto clínico, como estratégia para diminuir as suas dificuldades relacionais, como por exemplo, “Melhorar a comunicação, abordando mais vezes os doentes, procurando falar mais com eles” (E26). Para alguns destes estudantes, este treino figurava-se como uma “prática diária” (E40).


Interessantemente, a renovação de conhecimentos também foi realçada por alguns dos participantes, emergindo a sua necessidade em adquirir novos contributos teóricos que os assistissem na interação facilitada com a pessoa cuidada. Para tal, subsiste enquanto estratégia para os participantes “estudar mais para ultrapassar as lacunas e falta de conhecimentos” (E23). Neste âmbito, os estudantes enfatizaram que a participação na “opção cuidar com a humanitude, ajudou a melhorar a forma de olhar nos olhos, a forma de falar e de tocar o paciente” (E8).
A utilização da Metodologia de Cuidado Humanitude emergiu como uma estratégia facilitadora da interação com a pessoa cuidada, como referido por estes estudantes “utilizar a metodologia cuidar com humanitude de forma a reforçar a relação com a pessoa, tornando os cuidados mais facilitados” (E51, 52), “…a ferramenta de cuidar com humanitude diminuiu as minhas dificuldades” (E16), através de uma sequência de procedimentos cuidativos humanitude sistematizados, tendo sido dado enfase à aplicação dos pilares humanitude (olhar, palavra, toque) como evidenciado nestes discursos “utilizar as técnicas adequadas do olhar, da palavra e do toque” (E5), “melhorar a forma de olhar nos olhos” (E8), “falar de maneira calma, estimular o doente a comunicar… utilizar um discurso preditivo (dizer o que vou fazer) e descritivo (dizer o que estou a fazer) para ultrapassar o silêncio constrangedor…” (E1); “melhorar a forma de falar,…” (E8); “conhecer as palavras que acalmam os doenteS agitados” (E4), “…como iniciar uma conversa” (E25). Foi ainda enfatizada a importância da promoção da verticalidade e da mobilidade, como referido por este estudante: “também sugeri o levante de uma doente que estava no leito há uma semana, deu alguns passos e acabou por comer bastante bem” (E5). A intencionalidade no sorriso e manter uma postura calma, foram estratégias, também, enfatizadas por este estudante: “estar sempre com o sorriso na cara e manter a calma” (E15).
Foi ainda salientada a necessidade de treino dos procedimentos técnico-relacionais e apropriação da MCH, como evidenciado pelos discursos destes estudantes: “a necessidade de treinar e complementar os conhecimentos sobre a Metodologia de Cuidado Humanitude e as técnicas relacionais” (E3); “melhorar e treinar a comunicação verbal e não-verbal” (E20).
Nos doentes que não comunicam verbalmente foi salientado a importância da utilização da técnica do auto feedback (discurso preditivo e descritivo) como referido por este estudante: “em relação a pacientes que não falam, a estratégia passou pela utilização do auto feedback” (E7). Nesta categoria, emergiram como mais valias as estratégias centradas na importância do conhecimento da história de vida da pessoa cuidada, nomeadamente o que a acalma quando está agitado, foi também evidenciado por este estudante: “conhecer melhor a vida do doente para (...) conhecer as palavras positivas que acalmam os doentes quando estão agitados (E4) e o conhecimento da pessoa, sendo essencial “perceber sinais como o olhar, os gestos e alguns sons que a pessoa faça, que nos indique o que se passa com elas” (E24).
Por outro lado, os estudantes identificaram a necessidade de formação dos enfermeiros, dos contextos onde realizam os EC, sobre a MCH para que estes possam ser bons modelos a seguir, como evidenciado por estes estudantes: “nem sempre os enfermeiros estão sensibilizados para as particularidades da metodologia de cuidado humanitude” (E31), “falta de especialização em humanitude…ensinar técnicas da MCH aos enfermeiros do serviço e não seguir os maus exemplos” (E4).
Relativamente à categoria desenvolvimento das suas competências pessoais, emergiram as seguintes subcategorias: Autoconfiança; Manter a calma/gerir as suas emoções e Persistência. Relativamente à autoconfiança verificou-se ser um aspeto muito importante como evidenciado por este estudante: “ter necessidade de aumentar a minha confiança e ter noção das minhas capacidades” (E26).
Manter a calma e gerir as emoções são também estratégias recorrentes dos estudantes como referido por este estudante “utilização das estratégias de coping, no sentido de me adaptar a situações complicadas” (E18) e “manter a calma e concentração em todos os procedimentos” (E35). A persistência e a disponibilidade para aprender foram também evidenciadas por estes estudantes: “…nunca desistir” (E42), e “estar disponível e recetiva para aprender” (E43).

Discussão

Os resultados do presente estudo evidenciam que as principais dificuldades, na interação com a pessoa cuidada, dos estudantes que estão a realizar EC foram: a comunicação com pessoas com alterações na comunicação; comunicação com pessoas agitadas, confusas, agressivas; incongruência entre a teoria e a prática e prestar cuidados a pessoas que recusam os cuidados. Estes resultados convergem com os obtidos noutro estudo (4), tendo os autores verificado que os estudantes a iniciar o EC de enfermagem apresentaram como principal dificuldade a comunicação com a pessoa, especialmente em situações de agitação, agressividade, desorientação ou confusão. Na mesma linha, foram identificadas dificuldades em comunicar com pessoas que não comunicam verbalmente; lidar com doentes não colaborantes e que recusam os cuidados; compreender a pessoa; lidar com o sofrimento do outro; iniciar, manter e terminar uma relação; e lidar com a intimidade (4).
Por outro lado, a principal causa da dificuldade dos estudantes neste âmbito centra-se na falta de conhecimentos na área da comunicação/interação com a pessoa cuidada, falta de prática sobre técnicas relacionais e a simulação ser centrada em procedimentos técnicos de enfermagem (4,6). Na prestação de cuidados de enfermagem a pessoas que não comunicam verbalmente é de capital importância que haja a prática de técnicas relacionais pois, a pessoa isolada desliza rapidamente na desorganização mental e na confusão (16). A palavra é, também, para estes autores, um apelo de humanitude, dado que sem comunicação intencional, as relações humanas seriam reduzidas a trocas utilitárias (16). Quando a palavra é utilizada de uma forma terna e suave, mesmo perante uma pessoa que não comunica verbalmente, permite a ligação, desde que a priori o cuidador saiba iniciar uma conversa e ter a preocupação de a manter recorrendo ao auto feedback (18).
A comunicação entre enfermeiros e doentes é bidirecional, mas a condução deverá ser da responsabilidade dos enfermeiros (5). O doente inicia a comunicação sob stress, influenciado pelos diversos eventos emocionais que enfrenta, podendo manifestar raiva, descrença, agressividade ou negação da realidade como mecanismos de defesa (5,12). De acordo com os mesmos autores, na maioria das situações, o doente não possui desavenças prévias com os profissionais de saúde, ainda que estes sejam os recetores diretos da sua frustração momentânea. Neste sentido, torna-se vital que o estudante tenha consciência das suas capacidades, de forma, a encontrar estratégias capazes de solucionar as situações difíceis que se depara ao longo do EC, facilitando a adaptação e dessa forma aumentar também a eficácia da sua resposta. Tais estratégias irão capacitar o estudante a entender e aceitar os mecanismos de defesa do paciente, respondendo e assistindo-o de forma informada, consciente e célere (5,12).
Relativamente às estratégias utilizadas para superar as dificuldades na interação com as pessoas cuidadas, emergiram a formação e o ensino, aplicação da Metodologia de Cuidado Humanitude e o desenvolvimento de competências pessoais. A aplicação da MCH tem evidenciado ganhos na recuperação da qualidade de vida de pessoas idosas acamadas, com demência e outras situações de fragilidade (16-18). Segundo os mesmos autores, esta tecnologia de cuidado tem demonstrado uma diminuição acentuada dos episódios de comportamentos de agitação e, em contexto geriátrico, tem apresentado resultados significativos na redução do uso de neurolépticos por idosos (18).
Outro estudo (20) evidenciou que o contacto com a realidade prática em EC influencia as atitudes, competências e conhecimentos dos estudantes de enfermagem, potenciando a sua resposta no confronto com problemas. Todavia, este mesmo contacto não é suficiente para que possam aprender e/ou desenvolver competências comunicacionais específicas, devendo ser dada primazia à formação neste âmbito, integrada de forma sistematizada no currículo de enfermagem (20).
Também outro estudo concluiu que os estudantes de enfermagem que foram alvo de formação sobre comunicação antes de iniciarem EC demonstraram melhores competências comunicacionais (7). Todavia, os autores concluem que são escassos os planos curriculares das escolas de enfermagem que apresentam módulos específicos para o efeito e, das que apresentam, estes são centrados na vertente das teorias da comunicação, ignorando a necessidade do treino da comunicação (5,7). Esta realidade traduz-se numa lacuna formativa, porque a comunicação em contexto clínico apresenta especificidades próprias, enfatizando a componente de interação e comunicação interpessoal vivenciada pelos estudantes de enfermagem na prestação de cuidados à pessoa (4,6).
Porém, o apoio pedagógico dos estudantes em EC não deve ser relegado para segundo plano, sendo da competência do docente orientador incentivar no estudante uma atitude crítica e reflexiva, de estudo e de investigação promovendo a autoformação (14,15). Na mesma linha sequencial, os docentes preparados com competências comunicacionais conduzem os estudantes ao pensamento reflexivo, o que se traduz na demonstração de maior autoconfiança e autodomínio (10,13-14). Concordantemente, complementando a abordagem estritamente teórica vigente na maioria dos planos curriculares, Sheldon & Hilaire (21) estabelecem que os docentes poderão recorrer a exercícios didáticos, de role-play ou simulação realística para fomentar as competências dos estudantes de enfermagem neste âmbito. Tais âmbitos pedagógicos devem centrar-se na aprendizagem significativa e reflexiva de novos constructos comunicacionais verbais e não-verbais, reconhecendo que o pensamento reflexivo pelo estudante requer conhecimentos relevantes neste âmbito e experiência em contexto clínico.
Os resultados e considerações apresentados não devem centrar-se apenas nos estudantes, reconhecendo que estas mesmas dificuldades na interação com a pessoa cuidada poderão manter-se durante a prática profissional. Deste modo, as organizações deverão reconhecer a importância de estender os períodos de orientação e mentoria de enfermeiros recém-licenciados (20). De igual modo, a formação continua sobre comunicação é imprescindível para ajudar os enfermeiros a lidarem com situações complexas como episódios de violência, barreiras linguísticas ou comunicação ineficaz nas equipas interdisciplinares (21), contribuindo para uma prática mais humanizada (8).
Este estudo evidenciou a necessidade da realização de investigação nesta área, contribuindo para uma implementação mais eficiente de tecnologias de cuidado, no ensino de enfermagem e na prática dos cuidados, centradas no desenvolvimento e apropriação de competências relacionais e comunicacionais, sobretudo no cenário de envelhecimento da população com necessidades de cuidados personalizados e específicos.

Conclusão

Através deste estudo, de acordo com o objetivo inicial, foram identificadas as estratégias utilizadas pelos estudantes de enfermagem para reduzir as dificuldades na interação com pessoas agitadas e confusas, tendo a formação/treino de técnicas relacionais e a aplicação da MCH emergido como mais frequentes.
Todavia, ressaltam limitações decorrentes da realização do estudo. A escassez de bibliografia centrada na temática em foco, especialmente em contexto nacional, reduziu a possibilidade de comparação dos resultados encontrados com outras realidades vigentes. De igual modo, o foco em estudantes do segundo ano poderá reduzir a compreensão do fenómeno em estudo, reconhecendo que as dificuldades identificadas não são estanques, assim como as estratégias utilizadas podem alterar-se ao longo do tempo.
É importante salientar o papel do docente orientador de ensino clínico, na medida em que o mesmo tem direitos, mas também deveres para com os estudantes com o objetivo de ajudar no desenvolvimento de competências dos mesmos, tornando-se uma mais valia para a evolução e tomada de consciência da importância do papel da enfermagem.
Tal como foi discutido acima, a aplicação da MCH foi uma das estratégias referenciadas pelos estudantes para reduzir as dificuldades sentidas na interação com as pessoas agitadas, confusas e agressivas, dito isto, é relevante a formação continua sobre esta tecnologia de cuidado aos profissionais de saúde e a toda a equipa multidisciplinar, de forma, a que todos os cuidados sejam em humanitude.
Em suma, é essencial capacitar os estudantes com metodologias de cuidar que sistematizem e deem intencionalidade à interação com a pessoa cuidada, garantindo assim a humanização dos cuidados prestados.

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